Pedro Almodóvar baixou seus tons de comédia e excentricidades, para dedicar uma olhar ao íntimo mundano, em sua mais nova obra. “Dor e Glória” é o 22º filme do diretor espanhol que, dessa vez, mescla ficção e autobiografia ao contar a história dum realizador envelhecido, que tem de lidar com suas limitações físicas e ressentimentos acumulados ao longo de sua vida. 

Já de início, a dor, assim como no título do filme, mostra-se em primeiro plano. Antonio Banderas, no melhor desempenho de sua carreira, encarna Salvador Mallo: um homem solitário, taciturno e constantemente exausto por conta das inúmeras enfermidades que sofre. Ele está aposentado há 3 anos, quando seu filme “Sabor” ganha uma restauração da cinemateca espanhola que, também, o convida para apresentar as sessões ao lado do ator Alberto Crespo (Etxeandia). Mallo que na altura do lançamento original havia detestado a performance do protagonista e, por esse motivo, deixado de falar com ele, revê o filme e, para sua surpresa, gosta do que vê. Reencontrar e fazer as pazes com Alberto acaba por ser o impulso inicial para a trajetória de Mallo, que passeia pelo passado e presente titubeando entre a descoberta do vício da heroína e as reflexões sobre a infância.

Se o tempo salienta as dores do corpo, por outro lado, alivia as da alma. Perdoar já não é tão difícil quando a discussão está no passado, como vemos na cena em que Salvador perdoa Alberto. Entretanto, o tema de reconciliação também estará presente num antigo amor, na lembrança da mãe, na descoberta sexual e na paixão pelo cinema, curando pouco a pouco as feridas emocionais do protagonista. 

As primorosas encenações neste filme, e delicados temas abordados, contudo, não são favorecidos pelo seu ritmo. É difícil perceber a dos laços formados em meio a personagens que são apresentados para logo mais serem esquecidos pela trama. O encontro com o ex-namorado Frederico (Leonardo Sbaraglia) apesar de render uma belíssima cena, onde anos são concentrados em pequenos diálogos e olhares, se resolve em poucos minutos; e a relação com o próprio Alberto, que leva metade do filme para ser construída, é esquecida por completo em certa altura. Além disso, também somos pegos de surpresa com uma sequência de animação gráfica que, apesar de apresentar a assinatura cômico trágica de Almodóvar, de nada serve além de expor excessivamente os problemas de saúde do protagonista. 

Entretanto, após refletir, penso que ainda é possível argumentar que esta “falha” de ritmo seja mais um dos sinais de maturidade que Almodóvar conquistou com “Dor e Glória”. Antes de uma perfeita estrutura, ou uma grande cinematografia, este um filme de personagens e relações fortes. E por este motivo, é impossível não se deixar espelhar por ele.  

Dor e Glória (Dolor y Gloria) – Espanha, 2019

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Cecilia Roth, Julieta Serrano, Pedro Casablanc, Asier Flores, Raúl Arévalo
Duração: 108 min