A uma primeira vista, e não sabendo nada sobre o filme, pode-se achar que é um filme querido, jovial, e que se esquece de um dia para o outro. Mas para além da ternura inicial que se sente, os cento e vinte minutos seguintes também se revelam cheios de problemas fundamentais e socialmente conscientes, levantando uma série de questões importantes e desafiantes.

A melhor coisa sobre o filme é que este não se remete à aparente perfeição de uma família a viver na floresta, como talvez imaginássemos que pudesse acontecer num filme deste tipo. Isto é, é-nos apresentada uma família cuja estrutura é tão incomum e que nós não estamos habituados a ver no dia-a-dia, que obviamente sentimos fascínio por ela, mas esta cuteness inicial é ultrapassada quando o filme nos vai mostrando (e ainda bem) que esta também não é a maneira certa de viver.

Os “vilões” do filme teriam a profundidade de uma batata caso este fosse um filme mal feito; mas aqui eles têm razões e vivências suficientes para fazerem com que oiçamos e sintamos o lado deles. O caminho fácil seria fazer um filme sobre o quão má e errada está a civilização ocidental moderna e o quão melhor é viver isolado na floresta, mas, para além destes temas não serem tão lineares quanto isso, o filme faz um ótimo trabalho em subverter os papéis e a mostrar-nos os dois lados da moeda. Ou seja, o filme começa com um retrato bastante preto-e-branco do tema que está em causa, mas no fim do filme ficamos com a ideia de que as coisas são bem mais complicadas e acidentadas do inicialmente parecem – o filme levanta várias questões e põe muita coisa em causa.

É um filme que tem tanto a dizer sobre um lado como do outro, e acaba por deixar o espetador numa situação em que ele tem acesso às duas partes, porque todas as cenas estão estruturadas nesse sentido; não são os cineastas que avaliam e dão o seu ponto de vista concreto mas, por outro lado, é o público que acaba por pensar por si mesmo e pesar as duas vertentes da história (e isto acaba por ser a mensagem do filme – ter espírito crítico).

As personagens, bem como a história, são ricas, e esta é contada de uma forma muito pensada e racional; consegue ser engraçada por vezes, triste noutras, mas nunca o seu tom é desviado para outro lado que não o de falar sobre uma família, e sobre um pai em concreto, com todas as suas qualidades e defeitos. Viggo Mortensen, como sempre, faz um grande papel enquanto protagonista desta história, conseguindo carregar o peso todo de um pai que tenta dar e ensinar o melhor aos seus filhos, tendo ele próprio nuances e profundidade suficiente para se materializar numa personagem viva e na qual nos podemos rever a nós e às nossas crenças e conflitos internos. E quem diz o ex-Aragorn, também se refere às restantes personagens – a família é incrivelmente bem retratada, até aos miúdos, bem como as personagens mais secundárias e que servem para contextualizar socialmente os padrões que a família foi desenvolvendo no meio da natureza selvagem.

Após estes vários conflitos internos a que todos estão sujeitos, o desajuste social culmina numa cena final realmente tocante (como, aliás, não poderia deixar de ser, já que se trata da música Sweet Child O’ Mine dos Guns N’ Roses), dando a resolução perfeita para tão incomum família.

Captain Fantastic, analisando a uma luz superficial, pode parecer um filme rápido e leve. Mas, dando-lhe uma oportunidade, trata-se de um filme divertido e equilibrado mas, acima de tudo, humano.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com