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‘Chef’s Table’ – Antevisão da Temporada 3

A nova temporada de Chef’s Table estreia no próximo dia 17 de fevereiro e esta é uma análise a um dos seus episódios. Não tendo visto nenhuma das temporadas anteriores, fiquei um pouco reticente quanto ao estilo da série. Passo a explicar.

Se “Raue” – o título do episódio, sobre o chef alemão Tim Raue – é alguma indicação do que aí vem, é mau sinal. Isto porque a série parece preocupar-se menos com aquilo que faz com que os melhores cozinheiros do mundo sejam de facto os melhores do mundo – ou seja, a comida que efetivamente cozinham – e mais com as suas histórias de vida, desde a sua educação quando eram crianças até à entrada no mercado de trabalho, passando por um chorrilho de imagens de arquivo e lições de História.

Este ângulo rapidamente se torna aborrecido. Claro que isto se encontra bastante longe dos reality shows de culinária que se têm apoderado dos canais televisivos nos últimos anos, em que os concorrentes têm de cozinhar determinados pratos em provas cronometradas e toda uma série de desafios triviais, mas só isso não basta para prender o espetador. Este episódio perde muito tempo (quase todo, na verdade) a colocar Tim Raue num pedestal astronómico, mas sem nunca realmente justificar o porquê de ele ser uma figura tão importante na gastronomia alemã. Não há nenhum momento em que ele esteja a preparar os alimentos, a falar extensivamente sobre a sua arte, a apresentar a sua forma de cozinhar. Todos estes potenciais momentos de interesse são passados a correr, como se o espetador estivesse cheio para voltar a ver imagens de arquivo do Muro de Berlim (não é exagero, existem vastas sequências de imagens de arquivo daqueles tempos).

É incrível a forma como a culinária evoluiu tanto e tanto nas últimas décadas (no último século, até), e como algo que é essencial ao ser humano foi cada vez mais aperfeiçoado até se tornar numa forma de arte. Esta história é fascinante, não há dúvida, o problema é que este primeiro episódio não liga muito à questão da comida e prefere pôr pessoas a elogiar – “festival de bajulação” talvez seja a expressão mais correta – o chef, em vez de nos debruçarmos nos seus métodos, técnicas, criatividade, enfim, aquilo que o torna realmente um dos melhores da sua área.

“Raue” poderia ser uma meditação sobre a criatividade, sobre a arte por de trás da culinária e da gastronomia, sobre o que leva um cozinheiro a distinguir-se de tantos outros. Poderia ser tudo isso, se ao menos estivesse preocupado mais com a cozinha do que com o bairro onde ele nasceu, ou com os elogios que alguns colegas lhe fazem, sem nunca se ver provas deste suposto talento – são meras regurgitações de opiniões. Claro que importa contextualizar uma pessoa, mas até que ponto é que encher o episódio inteiro com isso é válido? Se isto é alguma indicação do que será o resto da temporada, sugiro que esqueçam a mesa dos chefs, já que pouco tempo lá passam, e mudem o nome da série para Chef’s Life Story.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes@8dot5bits.com

Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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