Conan O’Brien é o humorista há mais tempo em atividade no horário nobre norte-americano. Desde a década de 90 que o seu carisma permite-lhe transformar o seu entretenimento em informação. O seu humor muito particular, que varia do corrosivo à auto-depreciação, fez de Conan um ícone dos late-night shows, não só a nível nacional, como também internacional. Tudo menos um bárbaro, o comediante é um sinónimo de aproximação, comunidade e paz, que consegue reinventar o seu trabalho em prol de uma sociedade mais unida.

A sua paixão por viajar fê-lo criar uma espécie de spin-off do seu programa auto-entitulado que, infelizmente, não é transmitido em Portugal desde 2015. Conan Without Borders vê o humorista explorar os quatro cantos do mundo com a sua fiel equipa (da qual, curiosamente, nunca constou o inseparável Andy Richter) em busca de conhecer os locais, tradições e histórias que as nações levam consigo durante séculos. O lado ativista de Conan está patente neste programa e enaltece as suas qualidades enquanto ser humano e, principalmente, distingue-o de outros concorrentes do prime-time.

Recentemente, e pela terceira vez, Conan deslocou-se a uma nação alvo de comentários do presidente dos EUA, após Donald Trump ter afirmado que pretendia comprar a Gronelândia à Dinamarca por uma quantia irrisória. De forma impulsiva, o humorista viajou de rompante até à região autónoma para gravar um programa que não fora planeado, para passar a imagem de pacatez e simpatia de um povo que se viu nas bocas do mundo involuntariamente. As razões pelas quais Conan realiza estas viagens estão subentendidas – nunca são mencionadas, mas a interpretação de tentar ripostar contra Trump, é clara.

Os dois casos anteriores sucederam-se no México e no Haiti. Após a polémica relativa ao financiamento do suposto muro entre a fronteira americana e mexicana, Conan deslocou-se, em março 2017, a sul dos EUA para apresentar um programa na Cidade do México, no qual teve como convidados o ator Diego Luna e o ex-presidente mexicano, Vicente Fox. Um ano volvido, em janeiro de 2018, foi a vez de viajar até à nação das Caraíbas, dias após os comentários tenebrosos que Donald Trump proferiu sobre a população haitiana. Aí, foi capaz de transmitir o positivismo e alegria de um povo que viveu grande parte da sua história mergulhado numa ditadura e assolado por tragédias naturais, tentando eliminar qualquer preconceito que sobrasse sobre o Haiti.

Pequenos gestos como estes fazem de Conan O’Brien um militante, mesmo sem assim se auto-proclamar. Claro que apresentadores estão livres e têm a maior legitimidade de entrevistarem e convidarem quem quer que pretendam – mesmo que essa figura seja uma das mais controversas e pouco consensuais da sociedade atual. Contudo, esta ligeira rebeldia de Conan fá-lo sobressair-se numa profissão um tanto ou quanto saturada, demonstrando capacidade de introspeção que o leva a reinventar-se mesmo com quase três décadas de atividade no late night norte-americano.

Vários episódios estão disponíveis na Netflix – entre os quais a hilariante viagem à Coreia do Sul (e uma perninha na vizinha mais a norte) e o programa de estreia, em Cuba, outrora um país isolacionista e de relações cortadas com o Tio Sam – que espelham o papel essencial que Conan O’Brien desempenha na atualidade. Apela à paz, ao riso, às estórias, ao amor pelo próximo, enfim, une comunidades desde a israelita, à ganesa, passando também pelas europeias Alemanha e Itália, e terminando no canto australiano do globo. No meio de tantos bárbaros que habitam o nosso mundo, apraz-me apelidá-lo de Conan, o amável.

 

Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)