Chamem-me de Velho do Restelo, rapaz que gosta de ser do contra, ou outros adjetivos impróprios de serem reproduzidos neste artigo, mas facilmente expressados numa caixa de comentários da rede social mais próxima de si, pois o que irei afirmar de seguida pode ser polémico. Não fiquei fã de 1917, o novo filme de Sam Mendes.

Ainda que esteja indicado a uma dezena de Óscares, apresentando-se, para muitos, como candidato a dominar a cerimónia, não exibe, para mim, argumentos suficientes para arrecadar uma mão cheia de estatuetas (o que, provavelmente, vai acabar por acontecer, dada a grande campanha de marketing de que tem sido alvo). Não obstante a incrível realização, tratamento de imagem e edição minuciosa, na minha opinião, do melhor nível que o cinema viu na última década, falha em aspetos cruciais que tornem a narrativa minimamente realista – tendo em conta o tema – e capaz cativar o público. Passo a apresentá-los.

– Aviso-vos que os spoilers entram em cena a partir deste momento, portanto, a leiam ao vosso risco. Aproveito também para esclarecer aos indivíduos e indivíduas que estão prontos para digitar impropérios nas redes sociais que não é minha intenção dissuadir-vos. Sou somente um picuínhas aborrecido que acredita no conceito democrático da pluralidade de opiniões e que não pretende moldar uma ideia preconcebida junto daqueles que não viram ‘1917’.-

Falta de desenvolvimento dos protagonistas

Numa narrativa que se desenrola maioritariamente em torno de duas personagens, os Cabos Schofield (George McKay) e Blake (Dean-Charles Chapman), era fundamental nutri-los com qualidades que pudessem agarrar o público. Ora, não consegui sentir isso em 1917. Os protagonistas apresentam-se estagnados desde o primeiro segundo, carecem de uma sólida backstory e de traços distintivos que, por sua vez, impossibilitam o estabelecimento de uma ligação entre audiência e heróis. Para mim, são personagens vazias que servem apenas o propósito de falecer, correr, disparar e cair numa cascata de clichês de Hollywood, quando apresentavam potencial para mais.

Diálogos desinteressantes

Não pedia que Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns se inspirassem nos diálogos de Tarantino, contudo, num filme com tão poucos intervenientes, pedia que as conversas entre os protagonistas assumissem uma posição de destaque. Talvez simultaneamente a causa e efeito do vazio das personagens, os diálogos ficaram aquém para um filme que não explora eficientemente as capacidades do show, don’t tell que este género tanto utiliza para intensificar o suspense da narrativa. A oratória mais robusta surge ainda no início, com Andrew Scott a personificar o cínico e sarcástico Tenente Leslie durante cinco minutos, naquela que terá sido, também, a personagem mais interessante de 1917.

Argumento demasiado simples

Antes de mais, um argumento simples, por vezes, é positivo. No entanto, acredito que as já referidas personagens e diálogos tenham fragilizado a simplicidade de uma narrativa, cujas vulnerabilidades ficaram a nu. Fossem esses dois fatores melhor trabalhados, quiçá a minha opinião fosse diferente. Porém, como tal, não consigo dissociar a ideia de que o argumento se resume a dois soldados a caminhar pelos campos de França, repetidamente fintando (quase) todos os perigos que encontram. Ainda que exista alguma variedade nos obstáculos que Schofield (principalmente) encontra, fica também uma sensação que essas ocasiões são extremamente forçadas e convenientes para o desenlace do enredo.

Conveniência do enredo

Essa mesma conveniência pode ser implicação minha – provavelmente já terei admirado filmes com imensa artificialidade, mas não os que estão à beira de serem galardoados. 1917 introduz alguns elementos com uma subtileza que rapidamente se desvanece quando percebemos que foram incluídos para, convenientemente, servir um propósito que pouco ou nada acrescenta à narrativa ou à evolução do protagonista. O balde de leite encontrado na quinta abandonada onde o Cabo Blake se esvai em sangue por um ato de ingenuidade (ou terá também sido de conveniência?) é um bom exemplo. Instantes mais tarde, o Cabo Schofield depara-se num esconderijo juntamente com uma aldeã francesa que cuida de um bebé – surpresa ou não, um bebé faminto que convenientemente recebe o leite que o protagonista recolhera no início do filme. Posso estar a evidenciar a minha picuinhice ao máximo neste parágrafo, contudo, esta junção caiu-me mal como um copo de leite morno antes de deitar.

Por fim, outro exemplo notório ocorre quando Schofield consegue chegar, finalmente, ao 2º Batalhão de Devonshire. Este, depois de ser levado pelas águas tormentosas de um rio até junto do agrupamento (outra conveniência?), encontra um harmónico soldado a terminar de vocalizar para os seus camaradas uma canção cuja letra faz ressonância com o turbilhão de emoções que Schofield está a passar. Pode ser novamente uma manifestação da minha casmurrice, porém, a forma como a cena está construída, com a chegada conveniente no momento conveniente com uma letra conveniente, faz-me querer que não. Além disso, aproveito para introduzir o ponto seguinte.

Demasiadas incongruências

Eu gostaria de saber como um soldado que foi levado pelas águas de um rio, caiu de uma cascata e esteve à beira de se afogar inúmeras vezes consegue sair de lá tão seco e imaculado, sem tremer de frio, inclusivé. Não encontrei registos meteorológicos para Ecoust (localidade onde se desenvolve a narrativa) em abril de 1917, contudo, não acredito que no Norte de França, há um século atrás, se vivesse um calor infernal que proporcionasse tal cenário.

Para além disso, os próprios anéis que Schofield guardou aquando a morte do Cabo Blake mantêm-se intactos nos seus bolsos durante toda a sua aventura atribulada – ou mesmo a carta que entrega ao Coronel Mackenzie, totalmente seca e legível, depois de ter estado submersa durante largos minutos. Outra situação inquietante dá-se quando os mapas que Schofield herdou do seu defunto camarada deixam de estar enxugados do sangue que jorrou do protagonista, situação bem visível por mais que uma vez.

Finalmente, terei eu ouvido bem sinos de uma igreja em Ecoust, uma vila destruída e tomada por forças inimigas, a sinalizar as horas (por conveniência?) ao Cabo Schofield? Bem, talvez dê o benefício da dúvida aqui.

Sobreposição da técnica à narrativa

Para concluir, aquilo que provavelmente já reparam ser uma das minhas principais queixas. É indubitável que o trabalho técnico em 1917 merece ser elogiado e, inclusivé, arrecadar prémios. Contudo, parece-me que Sam Mendes se preocupou, acima de tudo, em desenvolver uma obra que lhe firmasse créditos enquanto realizador irreverente e não como storyteller. Investiu muito para conceber uma disruptiva ideia visual de single take e reproduzir brilhantemente a hostilidade dos campos de batalha da 1ª Guerra, levando-o a deixar para segundo plano os supramencionados elementos cruciais. Não fosse a louvada realização, e diria que 1917 não acrescentaria nada à indústria cinematográfica ao reciclar o heroísmo exacerbado e a emocionalidade fácil de outras obras.

Para terminar, entendo perfeitamente a popularidade de 1917 e reconheço que merece ser distinguido em várias categorias. Não é um mau filme, comparado a outras obras com enredos sem nexo e atabalhoadamente organizados. Fica a perder, a meu ver, por querer ser demasiado inovador, quando não o é totalmente. Não creio que passe a ser visto como uma pária e tenho perfeita noção que, se quisesse, poderia ter escolhido ignorar algumas das imperfeições de 1917. Contudo, quando se está na passadeira vermelha para a maior atribuição de prémios de cinema, é impossível fazê-lo.

(Ainda assim, que realização e imagem incríveis!)

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)