A 23 de abril de 1977 nascia em Birmingham, Reino Unido, a figura central da presente edição da rubrica Desbobinar. John Oliver é, atualmente, um dos comediantes mais influentes do globo, ao aliar a sua originalidade cómica e postura impulsiva a uma minuciosa capacidade de análise à sociedade em geral. Há quase cinco anos a apresentar Last Week Tonight na HBO, aproveito o regresso do programa para debater a sua importância na atualidade.

Após uma rápida emergência no palco de stand-up britânico, emigrou para os Estados Unidos para se tornar um dos correspondentes de The Daily Show, recomendado por Ricky Gervais. Entre 2006 e 2013, a sua bizarria e irreverência, bem como sotaque distinguível, faziam John Oliver dar nas vistas no campo da sátira política e tornar-se uma das caras favoritas do programa. Teve a primeira grande oportunidade de abrir as asas e voar do ninho quando substituiu o então apresentador Jon Stewart durante dois meses, após ausência por outros motivos profissionais. A sua pequena intervenção foi bem recebida por fãs e crítica e aquilo que há muito se pedia acabou por se concretizar – John Oliver saiu de The Daily Show para poder, finalmente, ter um programa só seu, com total liberdade para brilhar a solo.

É assim que chegamos ao busílis da rubrica. Last Week Tonight estreou na televisão norte-americana a 27 de abril de 2014. Desde o episódio dedicado à batalha legal entre a POM Wonderful e a Coca-Cola que este tem prosseguido um caminho ascendente, não só em termos de popularidade, como também relativamente à comunidade de fãs. Para isso tem contribuído os conteúdos carregados no canal de YouTube, que já ultrapassaram o patamar das mil milhões de visualizações. Ao aproveitarem as tendências da era digital, o segmento dedicado à história principal tem deslumbrado entre os cibernautas e revelado a capacidade do humorista britânico em influenciar e informar através da sua liberdade criativa. Para esta disseminação também ajudam as diversas hashtags criadas em certos capítulos, por mais absurdas que sejam, mantêm a dinâmica de discussão do programa.

A grande diferença de Last Week Tonight para outros formatos similares está na forma como a mensagem é conduzida ao público. Além de ser relevante, está munida de analogias e um hiperbólico sarcasmo corrosivo que John Oliver usufrui como poucos. Este mostra-se exímio em encontrar uma saliência no mercado dos late night shows norte-americanos, ao adaptar uma fórmula quase saturada e convertê-la num espaço científico onde pudesse expressar-se genuinamente e sem filtros. Com uma frontalidade brutal, esmiúça temas globais com muita, pouca, ou até nenhuma cobertura feita pelos media. Democratiza a informação e procura consciencializar e esclarecer uma audiência vulnerável às ondas de desinformação sobre alguns acontecimentos sociais que merecem uma profunda e séria reflexão.

O humor torna a dissertação menos entediante e mais memorável, é certo. Contudo, por trás de cada abordagem satírica, está um trabalho de investigação minucioso levado a cabo pelo apresentador e sua equipa. Só graças a esse estudo de bastidores que Last Week Tonight torna-se tão desconcertante e goza do recorrente sucesso. Trata-se de um processo penoso, como o próprio Oliver admitiu, mas necessário para criar a magnitude desejada em cada episódio. Talvez saia beneficiado por se tratar de um programa semanal, em contraste com outros que partilham uma posição na grelha. Porém, há que salientar o esforço diário dos colaboradores em manterem-se constantemente atualizados.

Por fim, se dúvidas existissem sobre a aptidão mobilizadora e persuasiva de John Oliver, o impacto que o late night show tem causado no ramo corporativo americano e a nível internacional dissipa qualquer ceticismo. Após um segmento dedicado a medidas da Comissão Federal de Comunicação em relação à net neutrality nos EUA, uma onda de comentários negativos tomou de assalto a página online da instituição. As insatisfações foram ouvidas e a proposta acabou por ser alterada (ainda que de pouco tenha valido, anos mais tarde). Noutro episódio, os espetadores foram sensibilizados para os efeitos nefastos do consumo de tabaco e a maioria da população alterou as suas perceções em relação à indústria graças ao estudo levado a cabo pelo apresentador. Outros temas como casos de corrupção na FIFA, o Brexit ou a crise política na Venezuela, por exemplo, também têm gerado bastantes debates e garantido a transmissão de uma mensagem imparcial e crítica a sua realidade.

John Oliver é, portanto, um homem necessário no combate à fake news e manipulação intelectual. Diverte, faz rir e procura manter as audiências corretamente informadas, com argumentos suficientes para incentivar o pensamento crítico e evitar juízos de valor precipitados. Uma prova que um indivíduo pode ser ativista e humorista simultaneamente, já viu o seu programa ser censurado na China, apelidado de aborrecido por Donald Trump e criticado por quase todos os visados dos seus segmentos. Uma situação normal pela postura arrojada e corajosa ao divulgar certos tabus. Contudo, se não for esse o seu papel, qual seria o propósito?

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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)