Escrevo o primeiro ‘Desbobinar’ de 2019 num tom nostálgico. Aproveitei a pausa nos estudos para recordar os tempos nos quais as responsabilidades eram uma miragem e a inocência guiava-me à descoberta do mundo. Assim, ligo o meu portátil, entro no YouTube, coloco os auriculares e isolo-me nos timbres de célebres melodias que marcaram o já distante início do século XXI.

Passados vários minutos, dou por mim longe desses hit singles e num universo completamente distinto. Estou dentro de uma espécie de banda desenhada em Tóquio a reviver aventuras com um rapaz de óculos grandes, com uma camisola amarela vestida, líder dos desastres e desgraças. Este faz-se acompanhar de um gato robô, que mais se assemelha a um guaxinim e que tem a particularidade de possuir uma bolsa mágica da qual saca aparelhos de todas as formas e tamanhos. Para quem não se apercebeu, refiro-me a Doraemon, o gato cósmico, uma manga criada por Fukijo Fujio e que encantou pessoas pelo mundo fora com as suas bizarras e divertidas narrativas. Exibido na versão espanhola durante vários anos, tornou-se num dos principais símbolos da programação do Canal Panda, ao marcar a geração nascida nos anos 90, principalmente.

Doraemon era um gato que tinha um peculiar medo de ratos

Ainda hoje me questiono sobre as razões pelas quais Doraemon me impactou mais que outras séries. Por exemplo, também fui espetador assíduo do Disney Channel e do Cartoon Network, quando este ainda transmitia em inglês. Contudo, não sinto tanto a falta das desventuras de Johnny Bravo ou do surrealismo de Ed, Edd ‘n’ Eddy como sinto a falta da simplicidade de Doraemon. O mesmo se sucede com outros desenhos animados que co-existiram na grelha do Canal Panda. Por exemplo, o humor educativo d’A Carrinha Mágica ou a emoção de Super Campeões, onde Oliver Tsubasa exibia o seu raríssimo talento em campos de cem quilómetros são, por mim, muitas vezes recordados. Porém, falta o estímulo que me faz passar horas a relembrar os momentos de infância em que consumia, incessantemente, os episódios que me tinham para oferecer.

Talvez a minha preferência por Doraemon se explique pela sua longevidade. Poucos programas não deram tanta continuidade aos seus episódios como o referido gato cósmico deu. Alguns desenhos animados chegavam a desaparecer da programação, quase como por magia, enquanto este se manteve intacto durante um largo período de tempo no Canal Panda, o que me permitiu seguir os capítulos assiduamente ao longo de sete ou oito anos.

Além disso, estava colocado num horário estratégico que facilitava a visualização pelo seu público-alvo. À hora de almoço, antes de ir para as aulas do ensino primário, lá estava eu sentado à mesa e a entreter-me com Doraemon. Mais tarde, continuou a acompanhar-me de manhã, às sete, novamente antes de enfrentar as (opinião pessoal) tão fastidiosas lições de Ciências e Matemática do 5º ao 7º ano. De certa forma, os seus duplos episódios ajudaram-me a relativizar e a começar bem o dia, sempre com energia positiva e mais motivação.

As personagens principais da série

Identificava-me com a curiosidade e a imaturidade da pré-adolescência demonstrada pelas personagens. Partilhava o mesmo fascínio pela descoberta e não media as consequências o que, tal como acontecia a Nobita e seus amigos, me causavam alegrias e, por vezes, me deixavam em apuros. Para isso também ajudavam os engenhos mágicos de Doraemon, com os quais me deslumbrava e, ainda hoje, desejava ter. Quantos de nós não gostavam de ter, pelo menos, uma porta mágica que nos levasse a todo o lado sem pagar? Decerto que algumas companhias aéreas não achariam muita piada, mas vale sempre a pena tentar. A capacidade dos criadores aproveitarem a necessidade do ser humano em querer ter a vida facilitada criou valor e personalizou a narrativa, tornando-a mais memorável para a petiz audiência.

Ainda que com menor relevância na cultura popular que outras obras geniais como Peanuts, Tom and Jerry ou Garfield, mas com capacidade para evocar a tão bela e maldita nostalgia, Doraemon marcou uma geração e o culto que apresenta no Japão é prova disso. Mesmo que o encanto seja diferente e perceba que os episódios eram estruturados sobre uma fórmula que se repetia demasiadas vezes, é impossível resistir à tentação de recordar alguns episódios. Se algum dia tirarem da bolsa do empreendedorismo e ideias uma plataforma de streaming nostálgica, serei o primeiro a subscrever.