Cinema / TV Destaques

‘Desbobinar’ – I am the One Who Flops

– Os comentários que se seguem são meramente pessoais e espelham somente a opinião do autor. Se ainda não viu a oitava temporada de Game of Thrones, não prossiga a sua leitura pois corre o texto contém spoilers –

O título da rubrica deste mês é alusivo ao certame que se tem desenrolado ao longo desta década. Refiro-me ao debate entre fãs de Breaking Bad e de Game of Thrones, que têm lutado entre si em conversas de hora de almoço, momentos de lazer, entre outros, pelo título – ou trono – de melhor série da história. Quiçá serem demasiado viciantes tenha tornado esta comparação imaginária como uma inevitabilidade sempre que o tema muda para cinema e TV – contudo, quer pelo conteúdo, como também pelo contexto, é injusto fazê-la.

Aproveitei a questão do debate entre Breaking Bad e Game of Thrones para introduzir aquilo que pretendo abordar. É quase um facto consumado que a última temporada da adaptação de A Song of Ice and Fire desiludiu fãs e, inclusive, o próprio elenco. Algo que não parecia ser possível mas que já tinha dado alguns indícios nos episódios que antecederam o desfecho da narrativa dos sete (agora seis) reinos.

Uma destas personagens ficou com o trono. Adivinhe quem.

A sétima temporada fora menos consistente que as anteriores. A dupla de argumentistas, David Benioff e D.B. Weiss, avançou num ritmo tão frenético que impossibilitou RR Martin de os acompanhar. Isso acabou por deixar os produtores sem um alicerce sólido para se basearem e se confortarem na sua escrita e com razões suficientes para preocuparem os fãs. Contudo, por muita ingenuidade minha, parti com grandes expectativas para a conclusão da série, não tivesse a adaptação de A Song of Ice and Fire preparado caminho para aquele que podia ser um dos acontecimentos mais marcantes de Game of Thrones.

– Mas tudo não passou de uma ilusão –

Kit Harrington praticamente só proferiu duas frases – “I don’t want it (the Iron Throne) e “She’s my queen”

Benioff e Weiss, ou D&D, como os apelidada a comunidade, falharam redondamente, talvez aliciados pelo seu próximo projeto com a Disney. Claro que o facto de terem ultrapassado a narrativa de George R. Martin é um argumento válido, contudo, carece de alguma credibilidade. Foram os próprios que apresentaram a ideia de transformar a trama do escrito norte-americano numa megalómana produção audiovisual e que receberam o aval do próprio autor. Foram os próprios que tiveram o privilégio de ser acompanhados por R. Martin durante o desenvolvimento da série. Foram os próprios que adaptaram desenvolveram as personagens e construíram as suas consequentes estórias. Ora, se assim foi, porque é que grande parte do que fora elaborado até então parece ter sido esquecido deliberadamente, como se os Men in Black tivessem apagado a memória dos argumentistas?

Não menciono o ritmo apressado, uma antítese da formulação lenta e robusta das temporadas anteriores. Com seis episódios, foi um caso natural. Mas a condução da narrativa em direção à conclusão foi, para mim, atabalhoada e forçada por tentarem encaixar material para, no mínimo, mais uma temporada, em pouco mais de sete horas de duração. Além disso, a cada erro apontado pelo público, a dupla Benioff e Weiss justificava-se com a primeira ideia que lhes vinha à cabeça – um pouco como eu fazia aos dez anos e como este vídeo satiriza.

A utilização de Sir Bronn foi um exemplo do desnorte dos argumentistas na oitava temporada.

Num tom menos irónico, a incoerência no percurso e atitudes das personagens, bem como diálogos por vezes sem nexo, repetitivos e parcos em ousadia são aspetos que levaram Game of Thrones a ter um soturno desfecho. Ainda que o final parecesse adequado, faltou coerência e organização prévia para que este fizesse sentido. A estrutura da narrativa desmoronou-se (ou queimou-se) aos pés de Benioff e Weiss, estes já com o foco noutros projetos. Para quem se comprometeu desde o primeiro dia a criar uma narrativa memorável, com um cariz global que nenhuma outra série conseguiu atingir, a displicência de D&D faz com que paire um sentimento de injustiça – agora sim – por não terem rematado a série com a entrega e qualidade de antigamente.

Se realmente se estabelecesse uma competição entre as melhores séries, ganharia, provavelmente, Breaking Bad. Contudo, é uma comparação relativa, como o tempo, e que nele se perde, pois as audiências atualmente deliram com outra produção da HBO, Chernobyl, quase que se esquecendo do desalento que sentiram no início da semana passada. A trama de Walter White é, de facto, uma das mais aditivas e fascinantes estórias da televisão, tal como Game of Thrones foi.

– Mas tudo acabou assim –

Emilia Clarke imitou bem a expressão dos fãs durante a última metade da temporada

Enquanto os argumentistas e produtores de Breaking Bad seguiram as ideias por eles imaginadas, Game of Thrones teve que se adaptar às circunstâncias e trabalhar em algo sobre o qual não foram responsáveis por conceber. D&D foram o perigo, bateram à porta e receberam um grande abraço coletivo de How I Met Your Mother, Lost, Dexter, entre outras tantas que falharam em agradar aos fãs no seu final. Fica um sabor amargo, é certo, mas com uma fotografia e banda sonora que adocica um pouco do marasmo da oitava temporada de Game of Thrones. Quanto a mim, cabe-me esperar pela publicação dos livros e esperar por algo que faça jus a Westeros.

 

 

A escrita, o cinema e a Netflix são o norte deste rapaz que procura não se perder no Mestrado em Gestão de Marketing.
Scroll to top