Em vésperas de estrear a sua terceira parte da narrativa, a rubrica Desbobinar aproveita para passar a pente fino a algazarra e celeuma que se criou com a chegada de La Casa de Papel à Netflix, algures no primeiro trimestre de 2018.

A série multiplicou-se em referências por Portugal inteiro, tornando-se num fenómeno nacional. Foi também, provavelmente, a primeira vez que algo produzido no país vizinho teve tanto impacto na cultura nacional, quase mais que algumas criações dos EUA e Reino Unido – a barreira linguística dificultou a sua propagação para essas regiões. Os trejeitos de algumas personagens como o riso de Denver, ou o carisma de Berlim, o começo do matriarcado de Nairobi, as várias cenas de ação de cortar a respiração ou simplesmente o trautear de Bella Ciao foram tópicos que nunca abandonaram conversas durante meses a fio. Contudo, terá sido por isso que a série ganhou tanta fama em Portugal?

Em Espanha, cerca de quatro milhões de pessoas viram o primeiro episódio, enquanto apenas metade acompanhou o último na televisão (La Casa de Papel foi emitida originalmente no canal Antena 3). Nada de anormal, pois esta curva descendente é habitual com o percorrer dos capítulos nas séries, sendo que o seu desempenho em nível de ratings foi bastante satisfatório. Todavia, nem todas as críticas foram espetaculares e muitos não a elevaram ao generalizado patamar de sensação que atingiu em Portugal.

Não obstante as excelentes representações de alguns elementos do elenco e da fotografia que acompanhou os assaltantes na Casa da Moeda, a primeira lacuna que se aponta é a sua originalidade. La Casa de Papel tem um argumento muito semelhante ao de Inside Man – filme protagonizado por Denzel Washington e Clive Owen – ainda que o criador, Alex Pina, consiga adaptar a premissa da série ao objetivo da sua narrativa. Além disso, dá uso em abundância à ação, soltando-se de uma intriga que se desenvolve paulatinamente, muito à maneira americana. Todavia, a inspiração está lá.

Não quer isso dizer que La Casa de Papel não mereça os elogios que teve. Consegue transmitir a verdadeira essência de um policial e deixa a audiência com os nervos à flor da pele, a tentar antecipar qual o próximo acontecimento e qual a seguinte revelação inesperada. Todos estes twists aumentam o nível de espetacularidade e mexe com as sensações do público ao impedi-los de desligarem os seus dispositivos. Porém, esta vontade em agarrar o público pode não ser benéfica.

Por mais que uma vez surgem momentos sem sentido, colocados em determinados pontos da narrativa em prol da concretização do objetivo do argumento, que desafiem a lógica da razão e as leis da física. Ainda assim, não é pelo facto do Professor quase se tele-transportar quando mais conveniente lhe é, nem por uma mota a cavalgar pela Casa da Moeda a dentro que a série se torna medíocre e impossível de ver. Acaba por acrescentar um tempero de emoção imprescindível para entreter – mesmo que proporcione momentos bizarros que qualquer indivíduo mais exigente está pronto a apontar negativamente.

É verdade que há cenas demasiado forçadas, algumas de nos fazer corar ou remeter ao silêncio – mas, novamente, acabam por funcionar. Acabam por ser suplantadas pelo carisma das personagens, o simbolismo por trás do assalto, uma trama frenética que nunca abranda e nos deixa sempre a desejar pelo episódio seguinte. E é esse o aspeto que consegue fortalecer – e de que maneira – La Casa de Papel na íntegra: o conteúdo.

Ninguém consegue vender uma narrativa sem conteúdo e estrutura – uma estória atabalhoada e confusa não se consegue impor perante um público exigente. No entanto, basta a balança pender mais para o lado do conteúdo que, caso esteja minimamente arqueada para suster a ação, personagens e reviravoltas, um filme ou série consegue cair no goto da maioria das pessoas – e foi exatamente o que se sucedeu com o fenómeno ibérico.

Este mostrou capacidade em se manter nas tendências durante meses a fio, formar uma comunidade de seguidores e criar campanhas de marketing sem precedentes para a Netflix em Portugal. Conseguiu, inclusive, batizar a inspetora Raquel Murillo (Itzar Ituño) de Lisboa, a nova cidade no acrescido grupo da resistência, bem como trazer a atriz ao Programa da Cristina – algo praticamente impensável no nosso país até há alguns anos. Isto leva-me a concluir que o mito que se criou em torno de La Casa Papel teve por detrás um planeamento estratégico de comunicação e marketing meritórios.

Atrevo-me a dizer, aliás, que em Portugal se anseia mais pelo regresso do que em Espanha. Um autêntico FOMO (Fear of Missing Out) disseminado pela população e que foi semeado desde há mais de um ano. Este receio de se sentir uma pária nunca se desvaneceu por completo – nem mesmo nos meses que precederam o hype da série, nos quais deixou de ser tão proeminente no dia-a-dia dos portugueses. Em Espanha existe a antecipação comum. Lançam-se as habituais campanhas de criar buzz e gerar awareness – perdoem o vernáculo publicitário – porém, nem isso é suficiente para evitar dizer que, atualmente, há quase tanta expressão lusitana como castelhana na Casa da Moeda de Madrid.

Não foi uma maravilha para os críticos, nem é a melhor série alguma vez feita – um juízo de valor bastante subjetivo e impossível de qualificar. Tem as suas falhas, mas a estonteante forma de apresentar a narrativa, desconstruída, repleta de surpresas e com personagens carismáticas, ajudam a suplantar qualquer falta de clareza na hora de montar os acontecimentos. La Casa de Papel funcionou perfeitamente como uma mini-série de duas partes – mas tem agora a oportunidade de se reinventar e mostrar-se mais arrojada nos novos capítulos que vão estrear em breve.

Avatar
Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)