Complementando a minha review de ‘Euphoria’ , quero contrastar a série da HBO com a sua contraparte da Netflix, ’13 Reasons Why’ (‘Por Treze Razões’ em PT). Ambas partilham temáticas: sexo e agressão sexual, drogas e depressão em adolescentes dos subúrbios americanos, ambas geraram controvérsia pelas suas cenas; mas cada uma tem uma abordagem distinta. Cada episódio de ‘Euphoria’ termina com um cartão de contactos para associações de apoio psicológico, assim como ’13RW’ tem desde a 2ª temporada. Como já falei de ‘Euphoria’ extensivamente, vou-me focar na série da Netflix.

Apesar de ‘13RW’ ir a caminho da 4ª e última temporada, neste artigo vou abordar principalmente a primeira, pois muitas das questões que vou levantar são abordadas na 2ª temporada com ‘retcons’ que dão complexidade às personagens mas parecem colados à pressão, e criam um “efeito Rashomon” que turva ainda mais as águas… Nas temporadas subsequentes os argumentistas tentaram apaziguar as preocupações de muitos, sobrecompensado por vezes, noutras melhorando certas cenas e personagens com contexto.

(Dylan Minnette no papel de ‘Clay Jensen’ em ’13 Reasons Why’, Netflix)

Adaptado do livro homónimo, ’13 Reasons Why’ conta a história de Hannah Baker, uma adolescente que se suicida. Um dia, o seu amigo Clay recebe uma caixa de cassetes gravadas por Hannah, detalhando um motivo e quem ela responsabiliza pela sua morte. Guiado pela voz da sua amiga e paixoneta, Clay passa a conhecer segredos sinistros escondidos na sua escola.

É uma premissa interessante, cada episódio um lado duma cassete, uma peça do puzzle, mistérios que agarram num ‘binge’ pela qual a Netflix é conhecida. O estilo estabelecido por Tom McCarthy (Spotlight’) como realizador dos 2 primeiros episódios tem uma cinematografia realista, sem muitos truques ou efeitos, câmara estática, recorrendo ao uso de cores vivas e saturadas nos flashbacks, quando a Hannah estava viva, e tons mortos no presente, o que para além de um bom toque artístico ajuda a entender melhor a cronologia.

(Katherine Langford é ‘Hannah Baker’ em ’13 Reasons Why’, Netflix)

Na 1ª temporada as personagens não são pessoas com personalidade mas condutores do enredo apenas: Clay é o nerd sensível com dificuldades socais (é aludido que teve problemas mentais mas não é explorado), Bryce o típico ‘jock’ dos filmes e age como um psicopata incapaz de empatia, Hannah é tão uma ‘everygirl’ que rivaliza a Bella de Twilight. O componente de mistério também faz delas marionetas, pois como vamos descobrindo as histórias das cassetes ao mesmo tempo que o protagonista, as pessoas referidas nas cassetes evitam falar entre si sobre acontecimentos que Clay (e o espectador) ainda não sabe, mas uns episódios à frente, depois de nos ser revelado, falam desses segredos como se soubessem que já não correm risco de fazer ‘spoiler’.

Quando ’13 Reasons’ saiu em 2017 gerou muita controvérsia pelas cenas gráficas, entre elas uma de violação e uma de suicídio (entretanto removida). Quanto às cenas, acho que deveria ser aplaudida: tanto a violação como a cena de suicídio são desconfortáveis de ver, como deveriam, esta última executada de forma tão visceral que admito ter virado o olhar mal a lâmina toca na pele, e eu que não tenho problemas com ‘gore’…

Mas a maior polémica foi a preocupação de “contágio”, um fenómeno real no qual quanto mais és exposto a representações de suicídio mais te parece uma solução. E, de facto, houve um aumento de suicídio adolescente após o lançamento da série. Mas podemos responsabilizar um artista pelos efeitos que a sua obra tem em quem a experiencia? Acho que não, mas não significa que não deva haver um diálogo sobre o assunto, como aliás era o objectivo dos guionistas.

A problemática aqui é tanto moral como técnica, não apenas sobre a história mas como é contada também. Mesmo que bem-intencionado, há uma diferença entre a mensagem que uma obra de ficção quer dar e a que passa aos espectadores, quem já conheceu ‘gym bros’ que adoptam ‘Fight Club’ como a sua bíblia sabe disso. Como sempre com obras polémicas há um diálogo sobre as influências que pode ter, se pode inspirar negativamente (veja-se a recente polémica do Joker’), ou compadecer e justificar maus actos (‘A Clockwork Orange’,‘Taxi Driver’, etc.). Eu sempre descartei tais insinuações; como Kubrick disse: “tentar responsabilizar a arte pelo que acontece na vida é um contra-senso. (…) mesmo sob hipnose ninguém pode ser obrigado a fazer coisas que vão contra a sua natureza”. Ainda acredito nisso, e lutaria contra qualquer censura da série, mas isso não me impede de ter uma opinião.

(Langford como ‘Hannah’ e Christian Navarro como ‘Tony Padilla’ em ’13 Reasons Why’, Netflix)

A intenção dos escritores é óbvia: que a Hannah podia ser qualquer adolescente, e por isso devemos ser bons para os nossos colegas e amigos pois não sabemos o que eles estão a passar; um “wake up call” para a sociedade. Mas sem explorar os problemas mentais que levam ao alguém a pôr fim à sua vida, a série acaba por argumentar que a culpa é dos colegas e adultos que a rodeiam, cuja consciência só vai acordar quando te matares, justificando o suicídio como a única forma de mudança, ignorando que milhões de raparigas e rapazes passam por situações semelhantes diariamente e não se matam. Como descrito por Alex Moen, uma conselheira escolar, a série “é uma fantasia que alguém suicida poderá ter: que depois do suicídio podes comunicar com os teus amados, que as pessoas vão entender tudo o que estavas a passar (…) que o rapaz giro e sensível se vai apaixonar por ti e procurar justiça por ti, e que o consigas orquestrar, e de certa forma viver, (…) na verdade o que acontece é que morres”. 

Falando tanto por experiência como por investigação, o suicídio não é a norma, não é qualquer um que o comete. Todos somos programados biologicamente para autopresevação, um instinto de viver mesmo sob situações insuportáveis. Ter um desejo de morte tão forte que supere esse instinto requer problemas da saúde mental, mesmo que bem lá no fundo, problemas que, sim, até podem ser causados por factores externos, mas que podem ser tratados. Mas estas personagens não têm um “lá no fundo”; só servem para pontuar a retórica fatalista de que toda a gente à volta de Hannah a matou. E a execução dessa mensagem chega ao cúmulo em que Hannah bem podia ter dito nas cassetes: “tu roubaste-me um lápis, e por isso matei-me”.

Estes pensamentos são realistas, sim; uma pessoa deprimida a esse ponto iria pensar assim. O problema é que a série, em vez de explorar o interior da mente desta jovem, mostra apenas as suas relações externas, o mais superficial, e essa é a sua irresponsabilidade. Até o conselheiro escolar, Mr Porter, é mostrado não só como incompetente mas negligente a nível ilegal. Se, por exemplo, quando Hannah visita o seu gabinete, o Mr Porter oferecesse o apoio que ela necessita, mas ela não estivesse pronta para aceitá-lo, seria uma boa oportunidade de criar complexidade em Hannah, de mostrar como a sua mente a está a trair e é isso que a leva a sentir-se assim. Em vez disso, a série descarrega na sociedade, simplificando o assunto com “os adultos são negligentes e não entendem”, justificando a sua morte unicamente com factores externos.

(Zendaya no papel de ‘Rue’, a protagonista de ‘Euphoria’, HBO)

Inversamente, ‘Euphoria’ equilibra os dois aspectos (causas internas e externas) perfeitamente, nunca absolvendo as personagens das suas acções, mas nunca as culpando unicamente nem ignorando o ambiente que as rodeia. A protagonista Rue é viciada, e os seus vícios são exacerbados pela sua bipolaridade, ataques de pânico, a morte do pai, discussões familiares, isolamento, problemas amorosos e sociais, mas nunca a série tenta desculpá-los com Rue em voz-off a dizer “as más situações levam as pessoas às drogas”, nem nas suas duas overdoses quase fatais. Este é tratado como um problema da sua natureza. Sam Levinson, argumentista de ‘Euphoria’, também não dá uma lição aos espectadores sobre “dizer não às drogas”, simplesmente nos mostra os acontecimentos e deixa-nos julgar. ‘Euphoria’ retrata sem moralizar.

Grande parte destes problemas com ’13 Reasons’ surgem pelo facto de as cassetes de Hannah serem o dispositivo narrativo da 1ª temporada, a sua voz a narração que nos abre a janela aos acontecimentos, o que nos limita a um só ponto de vista. Isso é subvertido na temporada seguinte, na qual os testemunhos das outras personagens servem de narração para episódios diferentes, fazendo com que o foco temático da série se disperse para “quem está a dizer a verdade”. E a terceira… Não sabe o que quer dizer nem como dizê-lo, apesar de compensar alguns dos problemas da 1ª temporada com os arcos narrativos de Bryce e Tyler. Outra das agravantes é a forma moralizadora como a série comunica com os espectadores.

Por contraste, Rue é uma narradora omnisciente em ‘Euphoria’, mantendo o foco e voz da série consistentes mas podendo explorar a fundo a mente, motivos e passados de várias personagens sem ter de limitar o nosso ponto de vista. Podemos ver as acções horrorosas do Nate (o ‘jock’ equivalente ao Bryce de ’13 Reasons’) mas entender as causas sem compadecer ou condenar totalmente. Podemos ter uma narração de Rue a justificar o porquê de raparigas mandarem ‘nudes’ apesar de saberem que podem ser usadas contra si, a fazer o seu “wake-up call” para a sociedade culpando os idiotas que partilham imagens de menores nuas, e ao mesmo tempo vemos as consequências desses actos. Ambos os lados mostrados sem total condescendência ou moralização.

Parece paradoxal que ‘13 Reasons Why’ crie uma raiva social pela sua imoralidade mas séries como ‘Dexter’ ou ‘Hannibal’ nos põem do lado de assassinos-em-série sem instigar tal controvérsia, mas a minha teoria é que essas séries são propositadamente exageradas, a sua ‘imoralidade’ é teatro, choque e entretenimento. As mortes por ‘serial killers’ são extremamente raras (é mais provável morreres engasgado a comer do que por um ‘serial killer’), o que faz com que as séries sejam mais como uma fantasia mórbida do que algum espelho da realidade. ‘Dexter’ nunca se apresentou como um estudo social sobre o homicídio, como ‘13 Reasons Why’ tenta ser sobre suicídio. Mas o suicídio é tão comum que é a segunda causa de morte entre os jovens portugueses (a seguir a acidentes de automóvel) , e aí assenta também outro problema: o público-alvo de ‘13RW’  são adolescentes. Uma pessoa com depressão é já um alvo vulnerável, um adolescente cuja mente não está completamente formada, sem mecanismos de defesa para lidar com o mundo ou a total posse de raciocínio para pensar nas consequências dos seus actos, ainda mais o é.

Se um artista ou pensador tem responsabilidades morais é uma questão sem resposta definitiva, é um diálogo que existe há milénios, desde que Sócrates foi condenado por “corromper os morais da juventude”, desde os romancistas vitorianos e as suas lições de moral e a reposta de Nabokov com ‘Lolita’ querendo escrever uma obra propositadamente imoral. ’13 Reasons Why’ certamente continua esse diálogo, o que não é um negativo, mas ‘Euphoria’ é um exemplo de como esse diálogo pode ser mais profundo, verdadeiro e sincero sem cair para os extremos do pêndulo, sem moralizar ou compadecer em demasia. Numa altura em que o suicídio e depressão nos jovens aumentaram para números recorde, é uma conversa que vale a pena ter, e tê-la da forma certa.