Sou suspeito quando escrevo sobre a obra de Quentin Tarantino. Trata-se de um dos meus realizadores preferidos com uma postura irreverente e sem rodeios que não se deixa acomodar pelas convenções cinematográficas para expressar a sua arte. Como podem ler, a minha análise tem tudo para não ser imparcial – contudo, serei breve em palavras e manter-me-ei fiel à neutralidade.

O nono – e, possivelmente, penúltimo – filme de Quentin Tarantino, é o culminar da evolução do cineasta que prova conseguir maturar-se e reinventar-se sem perder a sua originalidade. Duas décadas após a estreia de Reservoir Dogs e após vários filmes que raramente fugiam ao ritmo eletrizante que pautava narrativas bizarras com personagens idiossincráticas, Once Upon a Time… in Hollywood mostra uma nova faceta sua.

É preciso paciência, algum enquadramento contextual e vontade de apreciar a estética e delicadeza com a qual a obra foi produzida e realizada. Uma homenagem à América dos anos 60, no auge do movimento hippie, das drogas mais alternativas e da exacerbação dos Westerns, trata-se do seu filme mais pessoal de Tarantino. Exibe recortes das suas memórias quando, aos seis anos, viajava pelas intermináveis avenidas de Hollywood no carro do seu padrasto, onde na rádio intercalavam-se anúncios consumistas com a panóplia de géneros de rock que haviam de ser cabeça de cartaz em Woodstock, no verão de 1969. Preocupa-se em representar o período temporal e levar a audiência a sentir-se presente na época em questão, envolvendo-a numa narrativa que, por vezes, demora a arrancar, mas que culmina com a concretização do seu objetivo primordial.

Ainda que algumas cenas se alonguem em demasia, Tarantino utiliza a sua mestria em construir personagens carismáticas e idiossincráticas, misturando-as, desta vez, com indivíduos reais. Assim, constrói um universo idílico que envolve a audiência no período temporal da narrativa onde não descura de quaisquer pequenos detalhes que enriqueçam o campo da ação. Usufrui do talento inato de Leonardo DiCaprio para dar vida a Rick Dalton, um ator que procura relançar a carreira, e moldar uma espécie de anti-herói que lança um olhar crítico à vulnerabilidade dos artistas de Hollywood, acompanhado do seu inseparável duplo, Cliff Booth (Brad Pitt) que vai servindo de elo de ligação entre os elementos principais do enredo – influenciando, indiretamente, a narrativa de Sharon Tate (Margot Robbie).

Outras personagens verídicas como Jay Sebring (Emile Hirsch), George Spahn (Bruce Dern) ou James Stacy (Timothy Olyphant) também co-habitam no imaginário de Tarantino que os aproveitar para equilibrar o lado real e fictício da narrativa e trazer maior credibilidade contextual ao filme. Ainda assim, há a apontar a hiperbolização de Bruce Lee (Mike Moh), que foi severamente visada pelos acérrimos fãs do lutador, como um dos momentos em que perde o controlo dessa compostura que tentara passar – ainda que a sua utilização sirva de motor de desenvolvimento a Cliff Booth.

Mesmo que Tarantino não tenha sido Tarantino, Tarantino acaba por ser mais Tarantino que alguma vez foi. Esta frase, ainda que bastante confusa, resume Once Upon a Time… in Hollywood. É, como referi, uma faceta mais matura e ponderada do cineasta que prefere deixar a fugaz algazarra para segundo plano – algo quase inédito na sua obra – mas que finaliza, ao seu estilo, uma narrativa genuína com a justiça a servir-se fria como sempre Tarantino preferiu servir. A sua sensibilidade, por um lado, acaba por prejudicar a estrutura da narrativa que se torna irregular dada a transição da lentidão para rapidez frenética na sua fase final. Contudo, em termos holísticos, sai beneficiada pelo tempo de preparação para o clímax. Não obstante o suspense presente em certos momentos, a calma e resfriamento de intensidade permitem fomentar o impacto do desfecho da narrativa – e gerar reações polarizantes.

Once Upon a Time… in Hollywood mostra uma nova faceta em Tarantino. Perto da sua suposta reforma, este descobre novas maneiras de surpreender o público, mantendo-se fiel às suas ideias e apologista da conceção de um cinema genuíno, conduzindo um elenco de estrelas à concretização do seu sonho de corrigir um pedaço da história de Hollywood. Entre as hipnotizantes performances do elenco que sustentam um filme complexo, fica também o destaque à cadela mais famosa de Hollywood, vencedora de uma Palma d’Ouro em Cannes: Sayuri, a pitbull (que também ela precisou de um duplo em certas cenas!).

REVER GERAL
Once Upon a Time... in Hollywood
8
Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)