eu·fo·ri·a
substantivo feminino
– 1. Sensação fisiológica de bem-estar. ≠ DISFORIA
(in Dicionário Priberam)

Adaptado por Sam Levinson da minissérie israelita homónima, ‘Euphoria’ retrata as vidas de adolescentes, entre a elas a protagonista Rue (Zendaya), uma jovem bipolar de 17 anos que regressa da reabilitação depois de uma overdose. Rue cria uma amizade com Jules (Hunter Schafer), uma rapariga transsexual que acabou de se mudar para a sua cidade. Elas e os seus colegas navegam pela juventude moderna em situações e experiências que desmascaram as pretensões da sua comunidade e geração nos subúrbios americanos.

Tanto a HBO, Levinson ou qualquer produtor poderiam ter decidido manter a história nos anos 90 como a série original, capitalizar na nostalgia como Netflix fez com ‘Stranger Things’ e muitos filmes e séries têm feito, mas ainda bem que não o fizeram. Centrar a história na actualidade, com a nova “geração Z” como protagonista, dá-lhe uma relevância e importância insubstituíveis, a sensação de que estas histórias não poderiam ser sobre mais ninguém em qualquer outra altura.

(Hunter Schafer no papel de ‘Jules’ em ‘Euphoria’, HBO)

‘Euphoria’ é co-produzida pela produtora A24 (‘Moonlight’, ‘Lady Bird’, ‘Midsommar’), e tem o “look” de um filme da A24 como ‘American Honey’ ou ‘Spring Breakers’. É essencialmente uma longa-metragem ‘indie’ de 8 horas. A fotografia e direcção de arte são incríveis; podes parar o vídeo em qualquer plano de qualquer episódio e perder-te na iluminação e enquadramento, nas cores e chiarroscuros. Em muitas das cenas, a cinematografia troca o realismo por um impressionismo de cores vibrantes e contrastes, às vezes ao ponto de parecer um vídeoclipe contemporâneo, mas em nenhuma altura senti que puseram travão à história e caracterização apenas para vislumbrar visualmente.

(Zendaya no papel de ‘Rue’, HBO)

Na realização são óbvias as influências de Martin Scorsese e Paul Thomas Anderson (especialmente ‘Boogie Nights’ e ‘Magnolia’); ‘one-shots’ impossíveis e movimentos de grua alucinantes, “whip pans”, montagens músicais, cores vibrantes, jogos de sombra e voice-overs sobre freeze-frames. ‘Euphoria’ é essencialmente o que aconteceria se ‘The Wire’ retratasse os adolescentes de classe média de ‘My So-Called Life’ e fosse realizado por Martin Scorcese sob alucinogénos, com uma pitada de ‘American Beauty’ à mistura. A série não esconde estas influências mas usa-as como adereços visíveis, misturando-os para criar o seu próprio estilo.

(Barbie Ferreira como ‘Kat’ em ‘Euphoria’, HBO)

Todos os aspectos técnicos, desde a montagem, fotografia e banda-sonora, são hiperactivos, vívidos e bruscos, espelhando as vidas das suas personagens, pondo-nos na realidade subjectiva do que é ser um jovem na actualidade, se bem que a sua mistura de estilos e ritmo acelerado podem gerar confusão na compreensão de certas cenas, às vezes fazendo-nos questionar porque raio estamos a ver uma determinada cena, e o porquê de ser filmada de certa forma.

Sendo Drake um dos produtores executivos da série, a banda-sonora, especificamente as músicas do compositor Labyrinth, é um exemplo de como assentar um estilo sonoro a uma série. Ao contrário de outras séries de adolescentes que utilizam sempre as mesmas músicas dos anos 70, 80 e 90 para acompanhar histórias que se passam nos dias de hoje, ‘Euphoria’ tem uma sonoridade contemporânea, soa a algo que as suas personagens iriam ouvir, e não um produto de realizadores e argumentistas de meia-idade.

Na representação, destacar um nome é uma injustiça pois todo o elenco brilha. Zendaya desfaz a imagem de estrela da Disney; mas ao contrário de outras ex-estrelas juvenis (vocês sabem quais), aqui não parece um golpe de marketing cínico, um “olhem para mim, sou crescida e irreverente agora”, mas uma evolução orgânica da sua carreira. Zendaya faz uma representação contida assente em subtis expressões faciais e corporais, mas sem medo de puxar emoções mais fortes quando necessário, em várias cenas justificando uma nomeação para um Emmy.

Outro destaque é a personagem Jules, que custa acreditar ser a primeira actuação da modelo e activista transsexual Hunter Schafer. Apesar de muito falado, especialmente numa altura em Hollywood na qual o ‘diversity casting’ é um tópico político, a série nunca entra numa lição ou “pandering”; o facto de Jules ser transsexual só é abordado quando relevante para a história, e não usado como uma declaração política.

Nate (Jacob Elordi) é também uma evolução importante do arquétipo do ‘jock’ malvado: é um estóico atleta que nos é apresentado como um jovem ‘American Psycho’, mas num processo que começa logo no 2º episódio vamos puxando as camadas da sua mente uma a uma até ver a sua humanidade danificada, sem que ele se torne um vilão cartunesco ou tenha um arco de redenção que o torne um herói. A performance de Alexa Demie como Maddy também dá complexidade ao estereotipo da líder de claque. Mas tantas são as personagens e representações brilhantes deste “ensemble” que precisaria de uma dissertação para as analisar como merecem.

“Com o passar do tempo era tudo o que eu queria, aqueles dois segundos de nada.” – Rue

Cada episódio abre com um “cold open” sobre o passado de uma personagem, narrado pela sarcástica e omnisciente Rue, o que nos permite que pelo final da série conheçamos todas elas como se fossem amigos de infância. Sam Levinson usou as suas próprias experiências como ex-toxicodependente na escrita, e pediu aos seus actores para contribuírem no processo criativo (até sobre maquilhagem discutiram extensivamente), e o resultado está à vista: cada personagem tem uma personalidade própria, e há uma autenticidade quase enciclopédica em todos os aspectos psicológicos e sociais, especialmente no que toca ao sexo adolescente, o abuso de substâncias, os efeitos sociais da omnipresente internet, da pornografia, dos smartphones e apps.

Tal como o livro ‘Infinite Jest’ de David Foster Wallace foi considerado a voz da “Geração X” americana , ‘Euphoria’ atenta uma posição similar no que toca à “Geração Z”: um mosaico da sua juventude e época, contada episodicamente em diferentes pontos de vista, retratando detalhadamente vícios e reabilitação, depressão e saúde mental, sexualidade e distúrbios, masculinidade e feminilidade, um compêndio de vinhetas que somam numa espécie de manifesto da sua geração. Infelizmente, a única falha a apontar neste aspecto é que não é um retrato completo, representando apenas uma percentagem marginal da geração Z, aquela cujas vidas são mais interessantes para explorar num drama da HBO mas menos “terra-a-terra”. Não lhe fazia mal ter incluído alguns dos aspectos mais quotidianos e realistas de ‘Eighth Grade’  de Bo Burnham, por exemplo.

Logo após a estreia, a série da HBO teve a sua quota-parte de polémica, discussões sociais sobre as suas cenas explícitas de sexo e violência sexual (incluindo imagens de genitais erectos), abuso de drogas, má linguagem, coisas pelas quais o canal americano já é conhecido, mas que nunca foram mostradas com tanto excesso e envolvendo personagens menores de idade. ‘Euphoria’ é uma série sobre menores para maiores de 18 anos, mas muitos adultos podem ficar chocados com o seu retrato bruto e cru da juventude de hoje. Aqui não vais ver os clichés de séries de ‘high-school’. De certa forma é um análogo moderno a ‘Kids’ de Larry Clarke, mas o seu choque provem não apenas de provocação e irreverência mas de uma vontade sincera de criar uma ligação entre os adultos e a juventude.

(‘Jules’ de Schafer e Jacob Elordi no papel de ‘Nate’, HBO)

Há tantas questões que a série levanta, e que gostava de explorar mas seria impossível fazê-lo numa review: o seu retrato da sexualidade fluida e orientação sexual, e a forma como certas cenas e diálogos me fizeram interessar mais por assuntos nos quais nunca tinha pensado; por exemplo, como os paralelismos entre Nate e o seu pai me puseram às 3 da manhã a pesquisar sobre o quanto a nossa orientação sexual é determinada geneticamente ou influenciada cultural e socialmente, e muitos outros aspectos da vida que ‘Euphoria’ retrata e nos deixa a nós, espectadores, com vontade de aprender mais. No entanto, da mesma forma que me vejo limitado pelo comprimento de uma review, Sam Levinson foi limitado pela duração de 8 episódios, abrindo portas que não chega a fechar satisfatoriamente, dando espaço para a segunda temporada (que já havia sido confirmada antes de a série ter sequer estreado) mas deixando muito por digerir.

(Alexa Demie no papel de ‘Maddy’, HBO)

Como foi o caso de ‘Thirteen Reasons Why’ da Netflix (cuja ligação a ‘Euphoria’ exploro noutro artigo), grande parte da sua controvérsia assenta na preocupação de muitos que inspire ou romantize maus exemplos nos jovens, essa velha cantiga. Na minha opinião, ‘Euphoria’ não romantiza mas sim retrata, sem estar carregado de uma lição moral condescendente, mas não sendo imoral (quando muito é amoral, mas nem isso creio que seja), algo que deve a sua influência ao estilo desenvolvido por Scorsese em filmes como ‘Wolf of Wall Street’ ou ‘Goodfellas’. ‘Euphoria’ não visa dar lições sobre as suas personagens, não condescende os seus espectadores, mas não glorifica as suas acções, atingindo o equilíbrio perfeito entre os dois.

‘Euphoria’ é uma alucinante “trip” emocional e social pelas vidas dos adolescentes marginais de hoje em dia, que pode não agradar a todos, por vezes confusa e desestruturada, mas é um marco artístico incontestável e algo que merece a nossa atenção e apreço como uma das potenciais séries mais importantes da nova geração.

 

REVER GERAL
Muito Bom
Tiago Cruz
Não sei onde a minha personalidade começa e onde acabam as referências a filmes, séries e livros, música e cultura pop em geral. ¯\_(ツ)_/¯