Desengane-se quem vai para a sala de cinema a pensar que este é um filme de propaganda racial; Get Out mexe com temas raciais, claro, mas estes são tratados de uma forma bastante equilibrada, original e inovadora.

Jordan Peele não é um nome novo na indústria, conta já com muita experiência enquanto argumentista e ator da conhecida série de sketches cómicos Key and Peele, mas após a conclusão desse projeto tão bem sucedido decidiu estrear-se na realização, e ainda bem – é muito difícil imaginar como este filme poderia ser melhorado. Mas como é que uma das mentes mais hilariantes da indústria conseguiu criar um filme de terror que se tornou instantaneamente num clássico?

O filme retrata a visita de Chris, um homem negro, à casa de família da sua namorada branca. Lá, começa a aperceber-se que algo parece estar errado; toda a gente é demasiado amigável para com ele. É sabida a dimensão (negativa) que as tensões raciais têm na América – basta juntar um carro de polícia e uma pessoa negra e o desfecho é facilmente apreendido -, o interessante aqui é como Peele conseguiu arranjar um exemplo desta inquietude étnica e transformá-lo em algo que toda a gente consegue não só compreender mas ficar colado à cadeira porque precisa de ver tudo o que vai acontecendo na história.

Todas as personagens e atores brilham; Daniel Kaluuya é ótimo no seu papel, trazendo uma vida e uma identificação tremenda, Allison Williams tem charme para nos prender àquela relação e é convincente o suficiente para nos levar para aquele universo tão ricamente arquitetado. Cada personagem tem um desenvolvimento eficaz e bem trabalhado, portanto logo aí ficam colmatados muitos dos erros clássicos dos filmes de terror. Tanto o pai como a mãe de Rose, interpretados por Bradley Whitford e Catherine Keener, têm um à-vontade desconcertante no que toca a trazer uma aura sinistra e macabra para aquelas que são as aparentemente amigáveis personalidades das suas personagens. Mas nem os papéis menos principais têm menos importância; Betty Gabriel tem uma das melhores performances do filme – interpreta Georgina, a empregada da família, e é capaz de carregar em todas as suas cenas uma atmosfera tão creepy e tão estranha que é impossível não nos sentirmos arrepiados. O comic relief é perfeito, sempre na pele de LilRel Howery, que interpreta um segurança de aeroporto, funcionando quase como uma mistura daquilo que Peele e Keegan-Michael Key faziam na sua série de sketches.

Ampliar medos dos seres humanos e incorporá-los num filme de terror não é algo propriamente novo, basta olhar para casos como o de Rosemary’s Baby (1968), mas Peele fá-lo de uma maneira bastante própria, juntando sátira social a terror, a suspense e a comédia. Tudo é ligado de uma forma criativa e nem por um segundo sentimos que a história foi escrita de forma preguiçosa ou que a realização foi menos que mordaz; a ambição de Get Out é palpável e, ainda mais que isso, é totalmente cumprida. Quando tudo podia descarrilar no terceiro ato, fosse o realizador um de talentos menores, Jordan Peele resolve tudo com uma mestria e cuidado que não se vê normalmente nos filmes de terror. Tudo é orquestrado de forma imprevisível, elevando a sua realização a um nível de artista visual que até então não tinha sido explorado em toda a sua amplitude, e aqui a hipnose sob qual a audiência está acaba por ter um sabor diferente, porque a catarse da parte final do filme mantém-nos ainda mais despertos sobre as imagens que se desenlaçam no ecrã.

A maneira como o realizador consegue estruturar tudo e ir desencadeando plot point atrás de plot point – sem nunca nada parecer forçado ou óbvio – é de um virtuosismo enorme, principalmente naquela que é a sua estreia na cadeira de realização. Existem, claro, alguns tropes do género de terror, como os típicos jump scares, mas a sua originalidade é sempre mantida fresca graças à história. A voz de Peele continua a ser ouvida – e de que maneira. Get Out é um dos filmes de terror mais originais não só desde It Follows, mas desde os últimos anos. Nunca o som de uma colher a tilintar numa chávena foi tão assustador.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes@8dot5bits.com