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‘Inferno’ – Análise ao Filme

Não tendo lido nem este nem nenhum outro livro da saga, não sei o quão fiel o filme é à obra de Dan Brown, portanto esta é uma análise meramente à adaptação cinematográfica. Assim sendo, e ainda que Inferno combine vários elementos, como mistério, aventura, ou a resolução de quebra-cabeças, o resultado final não é nada senão medíocre.

O filme começa em boa forma, quando o nosso protagonista (interpretado por Tom Hanks) acorda num hospital em Florença, sem qualquer memória dos eventos das quarenta e oito horas anteriores. Tem um ferimento de bala na cabeça e, pouco depois, aparece uma assassina a tentar disparar contra ele. Parece ser uma receita interessante e um ponto de partida convidativo o suficiente para entrarmos no mundo enigmático de Dan Brown. Infelizmente, também só mesmo noutro mundo é que este filme pode ser considerado bom.

Os diálogos são imediatos e explicativos, não há espaço para uma dedução dos eventos por parte do público, e isso, obviamente, tira a piada toda num filme deste género. O público quer pensar e conseguir chegar a conclusões, e não lê-las de maneira forçada em cada fala das personagens. Para além disto, tudo no filme é demasiado conveniente; as passagens secretas são todas ali, as personagens conseguem localizar tudo e mais alguma coisa, Tom Hanks acorda num hospital ferido e amnésico mas toma um duche e de repente já está em grande forma física; um protagonista com tanto potencial é deixado ao relento perante tamanha necessidade de apressar a história. A personagem é palpável e tangente, sentimos que está lá, não só porque é interpretada por um ator tão carismático como Hanks, mas também porque tem características que conhecemos e apreendemos, mas isso é tudo desperdiçado na tentativa (sem sentido) que o filme tem em lançar plot-twists atrás de plot-twists, quase como se esta ficção em Florença quisesse fazer competição aos filmes de M. Night Shyamalan.

Há sangue, há lutas, há aborrecidas citações de Dante – o filme é isto. Falando sobre este último ponto em concreto, as personagens parecem ter de parafrasear Dante imensas vezes, como se ninguém no público fizesse ideia de quem ele foi ou o que criou, mas esta jornada para aumentar a cultura do público não termina aí (até porque isso se estende durante o filme todo) mas sempre que mostram uma nova peça de arte, pensando que o mero facto de a mostrarem no ecrã tornasse o filme um pouco mais inteligente e culto do que aquilo que na realidade é.

Não tendo também visto os filmes anteriores da saga, O Código Da Vinci e Anjos e Demónios, tenho noção que este filme, por outro lado, tem uma escala bastante maior que a dos seus predecessores, na medida que em Inferno todo o mundo está em risco, deixando para trás as ameaças da Igreja Católica, que populavam anteriormente a saga, e talvez seja por causa deste problema global  que o filme não se consiga aguentar em si mesmo. Tudo no filme soa a mil e mais coisas que já vimos noutros filmes, não há nada de novo ou de especialmente bem feito, tudo surge de maneira apressada e com intenção de criar sempre a próxima sequência de ação, como se só isso fosse importante. Mas isto tem a ver com todas as áreas do filme e nem a secção musical foge à regra, quando nos deparamos que o compositor do filme é nada menos que Hans Zimmer e, no entanto, toda a banda sonora é facilmente esquecível, estando a anos-luz dos maiores trabalhos do músico alemão.

Apesar de tudo, uma coisa é verdade: o espetador tem vontade de ir a Florença, depois do visionamento do filme. Sendo toda a ação passada na cidade italiana, temos acesso a muitas imagens e bonitas paisagens da cidade; pergunto-me se o filme não seria mais interessante se não fosse assumidamente um filme-turismo e não uma tentativa falhada de filme de ação, aventura e thriller.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com

Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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