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‘Jackie’ – Análise ao Filme

A premissa de Jackie parece interessante à primeira vista; já foram feitos vários filmes sobre o assassinato de JFK, claro, mas um a partir do ponto de vista da sua mulher é algo inédito. O potencial é notório, mas infelizmente os criadores do filme cortam-lhe as pernas durante toda a duração do mesmo.

O filme abre com Jackie miserável e acaba com Jackie miserável. É normal, afinal de contas é sobre o luto da mulher de Kennedy e como esta teve de lidar com tudo o que estava à sua volta naquela altura. O problema é que sempre que uma cena está prestes a ir no bom caminho e a cativar o espetador para aquela história, o realizador decide cortar quase abruptamente e trazer-nos de volta às aborrecidas cenas de entrevista. Em vez de Pablo Larraín nos deixar conduzir livremente pelas cenas mais entusiasmantes, tudo é apresentado como um flashback e voltamos para o filme do “presente” – um jornalista a entrevistar Jackie – e essas, para além de incrivelmente monótonas, são talvez o mecanismo mais preguiçoso que este tipo de filme pode utilizar.

O filme não tem propriamente um arco, e isto porque está tão dividido entre estas duas histórias ; a primeira é sobre o luto de Jackie, a segunda é sobre a forma ccomo Jackie tentou influenciar o “legado” do seu marido, reescrevendo assim a História. Verdade seja dita, esta última parte é bastante mais interessante que a primeira, pelo menos em teoria. Na prática, por outro lado, acaba por ser bastante contida e sem nunca arriscar, o que faz com que supostas cenas de tensão dramática tenham a mesma carga emocional de um banal filme de advogados; existe uma cena em que Jackie informa o assessor do novo Presidente de que o funeral do seu marido vai passar em procissão na avenida principal, ao que este lhe responde que não pode permitir isso por questões de segurança. Toda a cena, que devia ter uma atmosfera bastante pesada, tem este ambiente de normalidade e nem por momentos sentimos que aquelas são pessoas reais e que estão a discutir questões importantes que podem mudar vidas. Não se sente verdadeiramente a emoção de cada um deles, como se dissessem apenas os diálogos que lhes competem e mais nada acrescentassem. Natalie Portman, durante grande parte do filme, consegue transpor o tom emocional da recém-viúva de JFK, sem nunca, no entanto, sentirmos que a atriz está a chegar aos seus limites; a ideia com que se fica é que Portman conseguiria ter feito uma performance muito melhor mas que, de alguma forma, acabou por se domar a si mesmo ao longo do filme.

O melhor que Jackie tem para oferecer é a sua banda sonora. Compostas por Mica Levi – responsável por uma das bandas sonoras mais interessantes dos últimos anos, em Under the Skin (2013) -, as músicas conseguem evocar a aura sombria que a história do filme transborda, ainda que (infelizmente) sejam completamente postas em segundo plano e nunca lhes seja dado o seu devido (e merecido) protagonismo.

É inegável que visualmente o filme é bem mais trabalhado que muitas das biopics comuns. Mas isso não chega; falta uma reescrita do argumento, performances mais memoráveis, enfim, uma atmosfera bem mais selvática (mesmo que fosse dentro do interior das personagens) e não tão contida e típica destes tipo de filmes. Se se tivessem afastado da normal talvez o resultado fosse um filme bem mais interessante.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com

Com a escrita e a música em plano de fundo desde pequeno, e sendo licenciado em Argumento pela ESTC e autodidata musical por natureza, ambiciona escrever filmes, séries, e compôr música para cinema.

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