“Living With Yourself” – que estreou a 18 de outubro na versão portuguesa da plataforma Netflix-, é uma nova série, de oito curtos episódios (a duração varia entre os 21 e os 35 minutos). Criação de Timothy Greenberg (produtor no famoso “The Daily Show”) e realizada por Valerie Faris e Jonathan Dayton (dupla responsável pela realização de filmes como “Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos” ou “Ruby Sparks”), junta comédia e drama numa dupla atuação de Paul Rudd (“Homem-Formiga” e “És o Maior, Meu!”), como Miles (o verdadeiro e o clone) muito bem suportado pela comediante irlandesa Aisling Bea, no papel de Rebecca, a sua mulher.

O primeiro episódio revela, desde logo, aquele que será o ponto fulcral da trama: a relação da personagem principal, Miles Elliot, com ele próprio (o título é sintomático desta questão), mas também com aqueles que o rodeiam.
Miles é um homem deprimido. Se, por um lado, o seu emprego como publicitário, onde antes se assumia como um criativo bem-sucedido, é agora símbolo da sua falta de motivação e aborrecimento, o seu casamento, por outro, passa por momentos frágeis, revelados pela sua falta de dedicação – em contraste com as constantes tentativas de comunicação por parte da energética Rebecca ou de alguns colegas de trabalho. Este lado mais negro da personagem, que se torna difícil de gostar ou de apoiar, está também presente no desleixo físico – a roupa suja ou amarrotada, o cabelo despenteado e as olheiras proeminentes na face carrancuda (características evidentes num habitualmente jovial e alegre Paul Rudd).

Numa conversa com um colega de trabalho (Dan), que está claramente numa fase oposta da vida, é sugerido a Elliot que visite um spa privado e envolto em mistério – Dan fala entusiasticamente sobre este lugar especial, que já tinha ajudado a melhorar a sua própria vida.
Neste spa, Miles passa por um dispendioso e eticamente dúbio processo de clonagem. Como resultado, o Miles antigo acorda debaixo de terra, envolto em plástico, enquanto o novo Miles acorda alegremente, pronto para seguir com uma vida que, sem saber, não lhe pertence.
Aqui torna-se claro que algo de errado aconteceu – não deveriam, depois do “tratamento”, existir dois Miles. Pior ainda, um dos Miles, o novo, é claramente melhor que o seu antecessor, seja como pessoa, como profissional ou como marido. A partir do momento em que ambos se apercebem do trágico erro do spa, começam a dividir tarefas, em casa e no trabalho, de modo a manter (secretamente) viável a vida dos dois – algo que eventualmente se tornará impossível.

Esta é uma série muito bem conseguida em vários aspetos.
Em primeiro lugar, o casting. Paul Rudd dificilmente poderia ser uma escolha mais acertada, o ator norte-americano interpreta o mesmo homem com personalidades que são antítese uma da outra, sem nunca comprometer as diferenças que as demarcam (mesmo quando ambos partilham o ecrã, algo que é também muito bem conseguido pela realização) e Aisling Bea, que enche as cenas em que participa com energia e dedicação, espelho daquilo que é a sua personagem.
Em segundo, a premissa. O enredo explora os limites humanos, pessoais e interpessoais, procurando responder (e colocar) questões em relação a temas como a individualidade, a vida profissional, o casamento, a paternidade (e maternidade) e o amor.
E, por último, na transformação de um caso de ficção científica (noutro contexto, alguns destes episódios encaixavam, que nem uma luva, em séries como “Black Mirror”) em problemática real da vida de qualquer um de nós.

De facto, tirando a aposta, em alguns momentos, de tentar explicar o relativamente complexo enredo através de flashbacks algo confusos, pouco mais há a apontar na forma como os realizadores e os criadores nos apresentam a sua obra – é muito merecedora de elogios a capacidade dos participantes de juntar humor com a reflexão sobre os lados mais obscuros e frágeis das personagens e, no fundo, da humanidade.
“Living With Yourself” é uma demonstração de como as imperfeições humanas fazem parte das características que nos definem e, sejam elas traços de personalidade ou cicatrizes de memórias, sem elas as nossas relações com os outros não seriam as mesmas nem, muito menos, cada um de nós existiria na sua própria individualidade.

REVER GERAL
Living With Yourself
Francisco Oliveira
Estudante de Comunicação Social e Cultural, interessado pela escrita, pelo cinema e pela junção dos dois.