“Midsommar” – Um ensaio sobre relações

O novo filme de Ari Aster (“Hereditário”, 2018) não pretende ser igual ao seu antecessor e faz por se afastar do mesmo, de diversas formas. Contrastando com o terror directo e constante que se desenrola nos mais negros e recônditos problemas de um seio familiar disfuncional em “Hereditário”, “Midsommar” assume a luz e a claridade como um dos mais importantes fatores para que a sua história se desenvolva tendo, por causa disso, um efeito bastante diferente daquilo que se poderia esperar num filme do género. De facto, “Midsommar” – à parte das cenas iniciais que nos introduzem as personagens e algumas das mais importantes características pessoais de cada uma delas – é-nos apresentado sob a luz intensa de um sol da meia-noite, onde dia se confunde com noite e luz se confunde com escuridão.
Fica, no entanto, a ideia de que a fórmula do filme de estreia acaba por ser mais eficiente. Seja, como veículo do terror e do medo, seja como instrumento da análise às relações humanas.

A história do filme consiste na viagem de um grupo de jovens americanos até à Suécia, para participar num festival de celebração do solstício de verão, que acontece numa pequena comunidade a cada 90 anos.
A primeira personagem que ficamos a conhecer – e a principal da trama – é Dani, personificada por Florence Pugh (“Lady Macbeth”, 2016), naquela que é a melhor interpretação no filme.
Pouco depois ficamos a conhecer um grupo de amigos de que faz parte Christian, interpretado por Jack Reynor (“Sing Street”, 2016) e segunda personagem principal (que mantém um longo relacionamento com Dani), Josh (William Jackson Harper), Mark (Will Poulter) e Pelle (Vilhelm Blomgren).

Nos primeiros minutos do filme ficamos imediatamente a par de uma das situações que definem psicologicamente Dani e a sua relação com Christian, assim como nos é dado a conhecer o contexto da viagem: Pelle, original da Suécia, convida o grupo de amigos a conhecer a sua terra natal, aquando da celebração de um festival tradicional, algo que agrada, por diferentes razões, aos antropólogos Christian e Josh, que vêm na situação um potencial académico, e a Mark, que se entusiasma com a possibilidade de conhecer mulheres suecas. Por força das circunstâncias, Dani é convidada e, para surpresa e desilusão de quase todos, aceita o convite.

A segunda parte do filme mostra-nos o último indício real de escuridão, quando se avista uma tempestade a sobrevoar a zona para onde o carro do grupo se direcciona, naquela que é a última vez que avistamos um céu que não seja inundado de luz – apesar de nunca, em nenhuma circunstância, vermos realmente o sol.

Assim que as personagens se encontram pela primeira vez com nativos, rapidamente nos apercebemos de várias características que os definem. Existe uma simpatia superficial e bizarra, uma felicidade e simplicidade de uma claridade soturna e, mais uma vez, a possível dualidade da luz, que tanto ilumina como esconde.

Numa das primeiras interações entre os turistas e os locais, somos introduzidos a uma das práticas comuns da pequena comunidade sueca, onde todos tomam alucinogénicos, e é também neste momento que assistimos a uma primeira reação diferente de Dani e a um afastamento do resto do grupo e, com particular importância, de Christian.
Ao longo do tempo, a estranheza da comunidade e dos seus rituais vai crescendo ao ritmo bem imposto pela imagética contraditória do lugar e dos seus habitantes. É um dos fortes de Aster e do diretor de fotografia Pawel Pogorzelski, mas também do brilhante score de Bobby Krlic.
É quando os visitantes assistem ao primeiro importante – e aterrador – ritual da comunidade que as suas dúvidas quanto à validade e necessidade da sua presença naquele lugar se levantam. Mas, rapidamente, isto é ultrapassado através de uma racionalização científica e antropológica dos atos, tentando justificar o injustificável e acabando por abrir portas a uma possível fatal aceitação de algo que, dentro da normalidade social, seria abominável.
Se, daqui para a frente, se esperaria uma aceleração dos acontecimentos e da construção do clímax, a verdade é que – um pouco como acontece com “Hereditário” -, Aster obriga-nos a esperar e faz tudo isto com uma lentidão que, ainda que precisa, se torna exagerada. Vai, por outro lado, dando pistas para um desfecho, à medida que introduz elementos de imagem e de guião que afunilam a possibilidade de surpreender a audiência.

Aquilo que passa, como pano de fundo dos costumes da comunidade sueca, é a desintegração das personagens e a deterioração da relação entre Dani e Christian, à medida que vamos assistindo a diferentes interações com os aldeãos, cuja atitude indiscreta parece aparentemente inconsequente perante os forasteiros.
Com o aproximar do final do filme, numa sequência de cenas incrivelmente belas, perturbadoras e intensas, o realizador convida quem assiste a ficar verdadeiramente imerso na natureza alucinante do festival, num conjunto de realidades impossíveis, mas verosímeis – tendo em conta o contexto – e, por isso, convincentes (mais do que no resto de toda a película).
No fim, os protagonistas resolvem, de certa forma, a tensão que entre eles pairava, numa celebração sombria de um fim e de um início de algo que vai para além daquilo que conheciam antes da viagem.

Apesar das várias vitórias na fotografia, no design (da autoria de Henrik Svensson nos edifícios e de Andrea Flesch no guarda-roupa), na discreta mas eficiente introdução dos elementos folclóricos dos rituais e ficção nórdicos, no credível ambiente da localidade sueca (aquele que se vê e aquele que se sente) e as interpretações de Pugh e Raynor, “Midsommar” não cumpre as expectativas que “Hereditário” elevou, deixando a desejar quem espera algo na linha do terror que Aster ofereceu no seu primeiro filme.
Resulta, no entanto, como um lento e perspicaz thriller psicológico e fantástico, que o próprio realizador descreveu como um “conto-de-fadas”, sobre uma relação (baseada na experiência pessoal do autor) em claro declínio e apoiada quase unicamente num esforço unilateral e num luto pessoal, que só poderá ser resolvido pelo momento extremo de catarse que a audiência e as personagens anseiam até à conclusão da obra.