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‘Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children’ – Análise ao Filme

Já há algum tempo que o cinema mainstream tem sido invadido por uma vaga de adaptações Young Adult, desde Divergent até Hunger Games, mas nunca estas tinham sido aliadas a um realizador com um estilo tão definido como o de Tim Burton. Quer se goste ou não do realizador americano, é impossível não reconhecer a sua marca e o tipo de histórias com as quais mais se identifica.

A última vez que uma história combinou tão bem com o estilo de Tim Burton foi em 2007, com Sweeney Todd. Nove anos depois, Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children tem, à primeira vista, todos os ingredientes para fazer deste filme um clássico de Burton: crianças com poderes, uma estética gótica e uma aura de ingenuidade infantil. Infelizmente, o filme não se aguenta ao lado dos maiores êxitos do realizador.

Existem paralelismos que podem ser traçados com antigos filmes do realizador americano, nomeadamente nos temas com ênfase familiar, no facto do filme ter uma cronologia que desafia o conceito de tempo, com os seus loops e regras próprias, ou até na própria mansão principal desta histórica, cuidadosa e meticulosamente decorada. Como é usual na filmografia de Burton, o protagonista é uma criança problemática, não compreendida pelos pais mas que nutre um afeto muito especial pelo seu avô. Os pais não o perceberem é talvez um simpático eufemismo; na verdade, o pai de Jake quase parece sentir asco pelo seu próprio filho, já que o trata com tamanha distância e em nada o tenta compreender. Por outro lado, Jake também não é propriamente uma figura interessantíssima, é bland e assim se mantém quase toda a duração do filme.

Eva Green, infelizmente, não tem muito tempo de ecrã, estendendo-se o seu papel quase ao de um longo cameo, o que não permite um aprofundamento maior da sua personagem, e que bem merecia, porque Miss Peregrine é exagerada mas não ao ponto de comprometer o filme, conseguindo fazer chegar a sua astúcia a todos os pontos da história, sempre que nela intervém. Por outro lado, a personagem interpretada por Samuel L. Jackson destaca-se e de que maneira; a estrela de Snakes on a Plane consegue roubar todas as cenas em que entra, o que não é surpresa nenhuma, uma vez que se trata de um ator tão carismático. Ainda que a sua backstory pareça ser aleatória, a personagem cativa por si só porque se trata de Samuel L. Jackson.

Os miúdos estão muito bem retratados, sempre na fronteira entre o estranho e o adorável, o que torna ainda mais rico o universo deste filme. O problema aqui é Burton preocupar-se mais com as personagens menos interessantes e não haver tanto destaque às secundárias, porque várias destas personagens – como os gémeos, por exemplo, ou a rapariga que tem imensa força – mereciam uma continuação ou um aprofundamento maior, sendo de facto interessantes e de certeza que dariam aso a muitas outras histórias, em vez de estarmos focados em duas ou três personagens que têm poderes não tão peculiares como o restante grupo.

Visualmente, o filme é muito competente. Todos os efeitos especiais são usados em prol da narrativa e nunca os sentimos exagerados ou desconexos da história, dando sempre muita cor ao universo tão típico do realizador, bem como todo o design de produção e guarda-roupa – mas isso já é um dado adquirido num filme de Tim Burton.

O maior problema com Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children reside no protagonista – não no ator em si, mas na personagem. O seu único objetivo parece ser fazer perguntas (aliás, os diálogos do filme estão repletos de explicações sobre tudo e mais alguma coisa), resignado a não ter propriamente uma função maior do que a de questionar tudo o que lhe aparece à frente. É um protagonista bastante aborrecido, cuja maior ação chega-nos apenas nos últimos trinta minutos.

O estilo visual e todos os elementos fantásticos são as coisas que mais sobressaem no filme, por isso é com alguma estranheza que se recebe o final da primeira parte da história; depois de estar dentro daquele universo tão rico e interessante e de ter descoberto o loop temporal, Jake, o protagonista, decide voltar para a sua vida passada, sem aproveitar realmente ao máximo todas as coisas que pôde observar. Claro que, passado algum tempo de filme, ele volta a reencontrar este universo, o que nos leva a perguntar-nos então por que razão é que Burton decidiu engonhar com a história.

O filme tenta alcançar um ambiente fantástico, mas o facto de o protagonista ser tão aborrecido não ajuda nada, ainda que em termos visuais esta história sobressaia e de que maneira.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com

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