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‘O Misterioso Louis Drax’ – Análise ao Filme

“Alexandre Aja tem vindo a amolecer com a idade” é o tipo de frase que muito se vai ler àcerca do realizador de The 9th Life of Louis Drax. Há 13 anos atrás, ele era o jovem realizador que electrificava públicos por todo o mundo com o home-invasion Haute Tension, possivelmente o filme francês mais gory de sempre — a malta que só viu a cena cabeça-contra-extintor de Irreversible não faz a mínima ideia. Louis Drax, possivelmente o último filme de Aja antes de chegar aos quarenta é um filme tão clássico que poderia ter sido feito nos Estados Unidos durante a década de 50 sem que se tivesse de mudar bastante o guião. O twist no final de Haute Tension é chocante, mas o verdadeiro twist é que crianças, esta semana, podem ver um filme do mesmo homem que filmou um felácio a uma cabeça decapitada! Depois disto, Eli Roth irá levar Strawberry Shortcake ao grande ecrã e Tarantino irá acabar a carreira com uma adaptação de Nicholas Sparks.

Estou a ser injusto. Aja não é o primeiro realizador que depois de começar a sua carreira no terror puro e duro decidiu mudar o rumo da sua carreira: Sam Raimi, Kiyoshi Kurosawa e Peter Jackson têm todos percursos semelhantes. Jackson até tem um filme bastante semelhante a Louis Drax: The Lovely Bones. E não existe nada àcerca de Louis Drax que sugira que o filme seja mal realizado, apenas mediocremente concebido.

Para todos os efeitos, Louis Drax apresenta-se como um thriller de mistério, alternando entre o presente e o passado numa maneira não muito diferente à da primeira metade de Gone Girl. Infelizmente, o twist — porque todos os filmes deste género têm de acabar a história com um grande twist — é gritantemente óbvio para quem quer que tenha sequer olhado para o material promocional (ou visto o primeiro flashback). Enquanto isso, o filme demora eternidades a arrastar os pés através de um segundo acto sem história nem tensão, enquanto o público inteiro espera que as peças caiam no lugar, as personagens todas a andar de um lado para o outro enquanto todas as sirenes de alarme àcerca do verdadeiro culpado tocam incessantemente na cabeça de quem quer que esteja a ver o filme.

Parte do problema é que para todas as ambições emocionais do filme, todas elas sublinhadas a caneta de feltro pela música de Patrick Watson que se torna mais poética e dolorosa a cada dez minutos, o filme, na sua necessidade de esconder o vilão, torna as suas personagens opacas a qualquer tipo de interacção humana que venha a confirmar de alguma maneira o final. A melhor interpretação do filme é a de Aaron Paul — não é revelatória de profundidades emocionais que Paul nunca tenha antes revelado, ele carrega um bocado a sua interpretação na sua primeira cena, por necessidades de realização — mas, para um actor que nem sequer é alto, apenas a voz uma oitava mais grave do seu tom normal, Paul consegue ter uma presença credivelmente ambígua entre o ominoso e o sensível, sem esta parecer minimamente forçada. No entanto, grande parte do peso do filme é carregado nos ombros do próprio Mr. Grey das cinquenta sombras, Jamie Dornan, que parece o irmão mais novo de Henry Cavill, mas nenhuma da grande atracção que a sua personagem sente pela mãe de Louis Drax passa pela sua imperturbável cara. Para além do seu papel sofrer do mesmo tipo de erro de casting que Chris Hemsworth sofreu em Blackhat: “hey, este modelo é também um dos melhores hackers/médicos de sempre”, a personagem de Pascal, por ser a única personagem que nos surge completa, isenta de mistério, deveria ser a personagem com que o público deveria ser trazido para a história, e no entanto a casualidade com que Dornan parece absorver tudo o que se passa em seu redor, funciona contra as intenções melodramáticas de Aja. É como querer ser campeão do carnaval no Rio de Janeiro e nomear João César das Neves para mestre-sala. Enquanto isso, Aaron Paul, cujas sequências em que interage com Sarah Gadon são bastante mais vívidas do que todo o romance nascente entre Gadon e Dornan, é mantido nem pouco reveladoras sequências de flashback, a interagir quase exclusivamente com o seu filho.

Porque, quando as cartas estão na mesa, Louis Drax revela-se ser um melodrama puro e duro, com um bastante estranho aside com um amigo imaginário em empréstimo de uma qualquer fantasia de del Toro. Basta olhar para toda a dinâmica entre Aiden Longworth e Sarah Gadon, como Louis Drax e a sua sofrida mãe, respectivamente. Enquanto Longworth é obrigado a dizer algumas das mais indizíveis e sentimentais linhas que uma criança alguma vez teve de dizer desde Extremely Loud, Incredibly Close (saudades de Noah Wiseman do The Babadook), Sarah Gadon necessita como de pão para a boca de uma liberdade que o argumento não lhe permite. Quando a sua fachada emocional finalmente cai, ela é imediatamente conduzida para fora do filme, quase como se Aja estivesse embaraçado por (ou não tivesse unhas para realizar) a sua condição psicológica. Gadon consegue ser tão inquietante como Paul e a sua relação ultra-protectiva com o filho cheira a esturro desde o início. E no entanto, dos dois, é Gadon que tem a oportunidade de usar um killer outfit, desta vez na forma de um vestido branco não muito diferente daqueles que Rosamund Pike pôde usar em Return to Sender. Não que Gadon alguma vez tenha permissão de ter a diversão trash que Pike teve em Return to Sender ou Gone Girl (ou sejamos sinceros, em grande parte dos papéis em que ela entra), Louis Drax é demasiado clássico para deixar que a diversão verdadeiramente se instale. Em vez disso, o filme deambula sem rumo entre o thriller psicológico, o filme de fantástico e o drama cute, sem que haja um nexo emocional entre as diferentes histórias, ou o argumento deixe transcender os parâmetros de género que o filme claramente precisa de fazer.

Em última análise, Aja usa o seu argumento mais para exibir a sua técnica visual do que para contar uma história. Esta não se aproxima, nem de longe, do virtuosismo técnico de Fincher, por exemplo, mas a sua imaginação traduz-se numa mão cheia de sequências visuais poéticas, como o espírito de Louis Drax a nadar num mar cheio de alforrecas fluorescentes por baixo do seu corpo comatoso no hospital, o cenário em que decorrem as cenas no hospital é apropriadamente belo sobretudo quando iluminado pela lente enevoada de Maxime Alexandre que empresta a Louis Drax o seu motivo visual mais coerente, iluminando as cenas nocturnas com brancos gelados esbatendo-se contra fundos escuríssimos. No entanto, o desenho da criatura marinha que assombra o coma do pequeno Louis Drax não têm a imaginação gráfica presente no fauno de El Laberinto del Fauno ou nos marinheiros amaldiçoados de Davy Jones dos Pirates of the Caribbean e por vezes a maquilhagem resulta tão falsa que mais parece que o actor vestiu o fato barato de Rockbiter das sequelas da Neverending Story. Para uma produção que terá custado à roda dos 20 milhões de dólares, mesmo filmando no Canadá para cortar custos, não deixa de ser bastante desapontante.

Louis Drax existe, em última análise, num limbo entre as várias emoções que quer habitar, sem se conformar com nenhuma. No entanto, enquanto a tendência recente é punir filmes por quererem ter grandes mudanças de registo emocionais num único filme e não se conformarem com um único tom, a verdade é que há que admirar um realizador que decide atirar tudo o que tem e pode oferecer para um único filme. Tais almas são raras hoje em dia. Que o filme não resulte, ou que não ascenda aos píncaros a que James Wan tem alcançado com a série The Conjuring, em última análise, não é uma completa derrota. O que é facto é que o miúdo que realizou Haute Tension cresceu. Onde ele dantes pintava com grandes pinceladas de cores primárias, hoje em dia ele experimenta, com Horns Drax, fazer trabalho de precisão com diferentes tonalidades emocionais. Ao tentar abraçar géneros tão díspares, tocar tantos extremos, Aja propõe-se escalar o Evereste sozinho. Pode não haver glória em ficar pelo caminho, mas tal ambição merece ser reconhecida. É mais do que muitos fazem.

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes (arroba) 8dot5bits.com

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