Paciência e persistência são, provavelmente, duas palavras que melhor e pior podem caracterizar a minha experiência com Mr. Robot. No final de 2017, decidi fazer um hiato de acompanhar a série criada por Sam Esmail, quando decorria a terceira temporada, após inúmeros episódios com muita inércia e pouco esclarecimento. Contudo, dois anos volvidos, decidi dar uma nova chance, da qual não me arrependo.

Terminei numa semana o que pensava que ia demorar, pelo menos, mais três ou quatro anos a concluir, provavelmente quando cada vez que a música Mr. Roboto, dos Styx, me abrisse as malditas gavetas da memória. Existem duas possibilidades para a minha repentina apreciação: ou eu atingi níveis superiores de maturidade (duvido) que me permitiram estimar a arte de Sam Esmail, ou houve um elevar de qualidade na temporada final de Mr. Robot. Inclino-me mais para a última opção.

– Este texto não vai analisar propriamente a série em detalhe, pelo que estará livre de malditos spoilers. Aos resistentes e persistentes como eu, podem prosseguir a leitura e, de seguida, fazer binge ao que resta do imaginário de Elliot Alderson, o protagonista encarnado por Rami Malek, se ainda não o fizeram –

Porém, permitam-me contextualizar a premissa de Mr. Robot aos menos familiarizados (e que possivelmente foram parar a este artigo por engano). A série acompanha o mencionado Elliot, um hacker que sofrer de ansiedade, depressão e de um transtorno dissociativo de identidade, cuja descrença na sociedade consumista cresce diariamente. Quando conhece o misterioso Mr. Robot (Christian Slater) decide criar o grupo anarquista, “fsociety”, na tentativa de orquestrar o maior ataque cibernético à fictícia multinacional E-Corp e mudar o mundo para sempre. Fiquem avisados, contudo – nem tudo o que parece, é.

Ora, após uma forte primeira temporada (praticamente sumarizada no parágrafo anterior) que rapidamente criou um conjunto de adeptos, Sam Esmail foi vítima da sua própria criatividade nos capítulos seguintes. Ainda que reconheça o génio que há em si, perdeu o controlo (estarei eu a meta-referenciar a série?) e deixou uma narrativa outrora fluída e cativante emaranhar-se numa teia de metáforas, simbolismos e personagens que pouco contribuíram para o seu desfecho. No entanto, nem tudo correu mal.

A partir do último episódio da terceira temporada e nos restantes da quarta, Sam Esmail voltou a recuperar um pouco do seu brilho, conseguindo assegurar mistério e suspense para prender o espetador capítulo após capítulo. Podia estar a ser influenciado pelo que está fresco na minha memória – mas após revisitar alguns momentos das temporadas anteriores, percebe-se o salto qualitativo de Mr. Robot, não só em termos estruturais, como estéticos.

A realização peculiar (ou característica) de Sam Esmail já se fizera notar – planos muito abertos, maior destaque à envolvência, sem que a personagem pisasse o centro do campo de ação. O grande problema foi esta abundância de preparação de imagem, praticamente cena após cena, o que me deixou saturado e também contribuiu para a minha longa interrupção. No entanto, em alguns casos da terceira e durante a quarta temporada, a realização do criador/argumentista/produtor/faz tudo da série libertou-se deste padrão.

Arriscou novos planos sem descurar a essência distópica de Mr. Robot, mas que transparecessem o ambiente de forma mais catártica. De certa forma acabou por, finalmente, dar mais espaço para a audiência respirar e se libertar do efeito sufocante do cenário, o que parece ter sido propositado. Exemplo disso é a substituição da tensão e subjugação à sociedade moderna representada com céus maioritariamente nublados por um ceú limpo em pleno inverno, dando lugar a um cenário mais esperançoso, coincidindo com um restaurar otimista algures na quarta temporada. Prometo não revelar do que se trata.

Além disso, Sam Esmail consegue maiores constrastes de cores e aperfeiçoar os seus jogos de luzes que conferem outro estatuto à fotografia e imagem da série. É aqui que justifico a sua capacidade de transportar técnicas comuns de cinema para o pequeno ecrã, onde, até há alguns anos, não existia tanta inovação em termos estéticos. Mas não é só nesse aspeto que Mr. Robot ganha vantagem sobre outras produções.

O seu storytelling experimental personaliza a narrativa com cenas – e, inclusivé, episódios inteiros – onde reina a máxima “show, don’t tell”, com as personagens a comunicar apenas através de gestos ou pistas visuais. Consegue inovar no campo de ação, várias vezes com transições sem cortes e com representações figurativas ou sonoras reveladoras das emoções que os protagonistas sentem. Por fim, como patente nas primeiras cenas do episódio inaugural da segunda temporada, ao ritmo da música Daydream in Blue, e como referi em parágrafos passados, entra num jogo com a audiência ao conjugar universos metafóricos com a realidade.

Talvez este último caso tenha sido o catalisador para que muitos deixassem de seguir Mr. Robot algures na segunda temporada – ou, no meu caso, terceira. Um exagero metafórico para, como o coloquial português afirma, “encher chouriços”, e com demasiada complexidade que aparentava afastar a rápida obtenção das exigidas respostas. No entanto, Sam Esmail solta-se da sua própria armadilha e consegue criar uma simbologia perfeita na quarta temporada que une todas as pontas soltas e permite dar a Mr. Robot um final merecido.

Qual esse final, vejam por vocês. Certo é que a paciência e persistência que falei no início deste texto foram chave para poder desenhar as seguintes conclusões. Mr. Robot não é uma série para todos os gostos.

A primeira temporada funciona perfeitamente por si só, com as restantes a direcionarem-se para um público nicho, à medida que entra a teatralidade futurista e tecnológica de Sam Esmail. Pelo que representa a nível de realização e imagem, será um objeto de estudo interessante pois a visualidade da série reforça o ecossistema em cena. Já pelo que representa em termos críticos, lança um olhar mordaz ao mundo obcecado por tecnologia, instantaneidade e, consequentemente, efemeridade relacional, muito ao estilo de Fight Club, filme que influenciou o próprio Esmail.

– Por fim, ainda que tenha dito que não iria analisar Mr. Robot em detalhe, não excluí a hipótese de avaliar as quatro temporadas. Ei-las –

1ª Temporada: 9/10

2ª Temporada: 6.5/10

3ª Temporada: 7/10

4ª Temporada: 8.5/10

Com: Rami Malek, Christian Slater, Carly Chaikin, Portia Doubleday, Martin Wällstrom, Stefanie Corneliussen, Michael Christofer, BD Wong, Grace Gummer, Bobby Cannavale, Joey Bada$$, Ashlie Atkinson, Elliot Villar, Gloria Reuben, Craig Robinson e Michael Gill.

REVER GERAL
Mr. Robot
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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)