Não é admirável o simples facto que um filme como Song to Song, uma obra experimental e pouco comercializável consegue ser protagonizada por uma tonelada de super-estrelas de cinema e ainda é distribuída em cinemas de todo o Mundo, como se ela fosse um drama ligeiro para Óscar? Se isso não servir como testamento ao poder que o nome de Malick ainda exerce sobre Hollywood, não sei o que será.

O que é facto é que Malick, hoje em dia, é visto com alguma sobranceria pelo público graças a esta súbita série de filmes estilisticamente iguais uns aos outros. Entre as críticas que lhe são atiradas à cara desde o Tree of Life, é que ele tem feito filmes monótonos (confere) e pirosos (não) que parecem anúncios de duas horas à Vida (um bocado). E enquanto o Tree of Life, o To the Wonder, o Knight of Cups, o Voyage of Time e agora o Song to Song são uma série de filmes com problemas ao nível de ritmo, com algumas interpretações desinteressantes e muitas vezes o seu estilo narrativo elíptico não funciona tão bem quanto devia, esta não é uma série de filmes tão vazia de pensamento quanto parece ser ao início.

Tomemos como exemplo Song to Song, o filme que, até ver, encerra a época experimental de Malick e estreia hoje nos cinemas portugueses. Apesar de, a um nível superficial, ser um filme que partilha todos os defeitos dos seus filmes-irmãos, é um retrato de uma situação bastante difícil: Como é que alguém consegue encontrar respeito e amor-próprio quando o mundo é vago e estranho e não vem com um manual de instruções? Como é que uma pessoa encontra uma filosofia própria? Como se constrói uma personalidade independente quando existe sempre a tentação para se conformar com as pessoas à nossa volta? Apesar das perguntas serem sofisticadas, estes não são de todo problemas académicos. Todos os dias, nas nossas vidas privadas, debatemo-nos com eles quer sejamos deuses do rock, milionários ou apenas uma pessoa qualquer. Já é tão raro alguém fazer filmes sobre o processo de auto-definição, é ainda mais raro quando estes problemas nos são transmitidos num estilo que simultaneamente consegue ser visualmente inovador e bastante próximo daquilo que a vida é: uma colecção de momentos semi-aleatórios e não-narrativos dos quais nós temos de extrair algum sentido.

(Raios, eu estou a escrever isto e quanto mais penso sobre o Song to Song, mais respeito eu sinto pelo resto do trabalho recente do Malick.)

Ajuda que Song to Song seja o melhor filme do Malick desde o Tree of Life. Rooney Mara, Michael Fassbender e Ryan Gosling são todos actores que em situações de improviso conseguem ser mais interessantes que Hunter McCracken, Ben Affleck ou Olga Kurylenko. Mara, quase impossivelmente bela, tem a capacidade invejável de sugerir com precisão aquilo em que está a pensar com um simples olhar e imbui todas as personagens que interpreta de uma particular humanidade. Ainda que seja um filme artistique sem história, Mara merece constar entre as melhores e mais envolventes interpretações que Malick alguma vez realizou. Fassbender, por outro lado, surge em Song to Song mais liberto e despreocupado do que alguma vez o vimos. Se aquilo que se diz do carácter de Fassbender atrás das câmaras tiver um pingo verdade, esta é a interpretação mais próxima de quem ele é na vida real que o actor alguma vez teve a oportunidade de fazer. No entanto, isso não é uma falha ou uma limitação. Pelo contrário, é uma alegria vê-lo em cada cena que ele está. Num dos momentos mais memoráveis do filme, ele consegue conquistar Natalie Portman em menos de um minuto e é espantoso. Ryan Gosling, por sua vez é simpático e divertido à maneira faux-awkward a que Gosling já nos habituou, mas é uma interpretação bastante auto-consciente. Não prejudica de todo o filme, Gosling é incapaz de ser desinteressante, mas não tem a magnitude ou a surpresa emocional dos seus co-protagonistas. Uma série de actrizes estabelecidas — Natalie Portman, Holly Hunter, Bérénice Marlohe e, a melhor de todas, Cate Blanchett — gravitam em torno do trio central em papéis mais pequenos, e todas elas funcionam em conjunto mas a sua presença no filme é puramente secundária. (A presença de Marlohe no elenco é uma das mais evidentes provas que este filme foi filmado entre 2012 e 2013 — entre Drive, Shame, Black Swan, Blue Jasmine, The Girl with the Dragon Tattoo e Skyfall, todos os actores neste filme tinham entrado em grandes êxitos críticos entre 2011 e 2012).

Parece que estou para lá da lua com este filme, de tão bem que eu estou a dizer dele. Não estou. Ainda que eu consiga admirar uma série de coisas àcerca de Song to Song, também existem uma série de coisas que ainda não funcionam. Com o seu fiel director de fotografia Emmanuel “Ganhei Três Óscares Seguidos” Lubezki, o filme tem imagens maravilhosas, mas a certa altura a decadência estilística ameaça colapsar a quase inexistente narrativa do filme. Não existe variação na montagem ou na operação de câmara quer a cena seja trágica, cómica, transcendente ou assustadora, o que torna Song to Song extremamente monótono. Keith Fraase e os seus dois colaboradores montam num estilo avant-garde, mas não têm a sensibilidade suficiente para se livrar das bengalas estilísticas (como as infindáveis montagens apenas suportadas por música) a que Malick está constantemente a recorrer — os créditos finais listam uma demente colecção de 77 músicas utilizadas num filme de duas horas. E até a própria maneira livre de improvisação que Malick tem preferido resulta em cenas de qualidade variável. Se a sedução de Natalie Portman é um ponto alto do filme, um ponto baixo é sem dúvida uma cena de discussão num bar entre Fassbender e Gosling, em que claramente nenhum dos dois actores sabe porque é que está zangado com o outro. O filme testa seriamente a paciência daqueles que o vêem e só alguém verdadeiramente predisposto a ir ver uma longa experimental em que uma data de gente linda parece estar constantemente na cama uns com os outros e a passear por lugares paradisíacos é que deve ir ver confiante que irá ver exactamente aquilo que pagou para ver.

No entanto, ainda que o filme seja aborrecido, não podemos confundir o aborrecido com a inexistência de mérito artístico. Malick pode já não ser o gigante do cinema que em tempos foi. Ele pode muito bem ter entrado na fase senil da sua carreira. Mas ele não deixou de ter coisas a dizer.  Ele pertence ao pequeno grupo de realizadores como Godard ou Paul Schrader que apesar de ter envelhecido e ter perdido alguma da visceralidade artística que inflamava os filmes da sua juventude, nunca deixou de ser interessante. Apenas os méritos de Malick se tornaram mais modestos. Ele continua ainda a tentar explorar os limites do seu estilo, a ver o que consegue fazer e dizer com esta diferente maneira de filmar que ele inventou. Ele continua à procura de histórias por contar, temas ainda por abordar. E, apesar das vergastadas que ele irá receber da crítica por ter feito outro dos filmes menores e decadentes da sua carreira, pelo menos isso ninguém lhe pode tirar. Afinal de contas, ainda existe uma veemente fanbase para a obra recente do Malick. Alguma coisa ele está a fazer bem.

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes@8dot5bits.com