Se a cena que fecha a primeira temporada de Narcos é filmada com calma e com tempo, esta nova temporada abre de uma maneira intensa, ao nível de todas as sequências mais dramáticas e carregadas de ação que a série nos trouxe o ano passado. Numa subida ao poder cheia de momentos intensos, de surpense interveniente nas cenas, de narrações por cima de música mexicana e imagens de arquivo dos tempos do verdadeiro Escobar, a queda de Escobar não fica nada atrás.

Primeiro que tudo, as pessoas que gostaram da primeira temporada nada têm a temer com esta segunda, isto é, todos os elementos que fizeram de Narcos um sucesso continuam aqui nos novos episódios, e com uma nova força. À semelhança da primeira temporada, os momentos dramáticos são vistosos, pesados, mesmo quando se trata de uma mera discussão familiar ou de um perigoso embuste; tudo está coordenado de forma elegante e real. A segunda temporada está repleta de sequências de ação, tiroteios, perseguições – não falta nada. E estes momentos, como acontecem na primeira temporada, são feitos e controlados de forma lógica e com sentido – não estão lá só para não aborrecer o espetador. Narcos continua igual a si próprio.

A corrupção não toca só no lado de Escobar, mas também em todas as partes envolvidas na sua captura; toda a gente é corrupta e corrompida, de uma maneira ou doutra, de uma idade à outra, pelo barão da droga. Num país onde o problema da droga se intensificou radicalmente com a entrada de Pablo nesse mundo ilegal, é natural que isso se arraste para todos os setores da sociedade, não ficando só pelos ditos “criminosos”. E isto está bem feito, temos noção que corrupção alimenta corrupção, tal como terror alimenta terror, e tudo isso é bastante notório no decorrer dos dez episódios, uma vez que existem muitíssimas sequências onde estes contrastes e pontos de vistas são postos à prova, sem nunca desiludirem o espetador. Nestes momentos, mais frenéticos e de cortar a respiração, a tensão é quase palpável ao virar de cada esquina, ao virar de cada plano, o perigo iminente sente-se não só por toda a gente que trabalha para Escobar, ou na sua família, mas também no próprio Escobar, humanizando-o e dando aso a momentos realmente comoventes.
No entanto, há problemas que saltam a vista, mas que já vêm desde a temporada passada. Os dramas amorosos só estão lá para marcar presença, sendo o seu único objetivo o de levar a história para uma certa direção, sem sentirmos que as personagens (ou algumas, pelo menos) estão de facto a viver aquilo; tudo isto é feito em prol da narrativa, como aliás é importante e obrigatório numa obra cinematográfica ou televisiva, só que aqui nota-se a léguas esta forçosa tentativa de mostrar que as personagens são reais só por terem uma relação amorosa, contando tudo para ganhar pontos na criação de drama. Ainda assim, esta crítica já vem da primeira temporada e portanto não é nada de novo, atenção apenas ao (novo) espetador que vem à procura de um grande aprofundamento das personagens que não as principais: a aura de ficção-documental tende a dissipar-se quando certos elementos se revelam meros plot devices, saídos exclusivamente de tentativa crua de ficcionalizar os acontecimentos reais.

A fúria frenética do mundo da droga é palpável, o clima de salve-se-quem-puder já era notório antes, mas ainda é mais sentido aqui, dada a natureza narrativa desta temporada. Cada passo é calculado, cada decisão é carregada de consequências perigosas, e se Narcos consegue criar momentos violentíssimos, pesados, de verdadeiro terror, também nos consegue dar sequências comoventes ao mostrar o lado mais humano das personagens, com igual pujança. A série não é apenas sobre vingança ou traição, ou sobre a tentativa desenfreada de tornar a morte de Pablo Escobar num ato patriótico, a série também é sobre família (como, aliás, já o era antes) mas nem nesses momentos – mais parados, por natureza – a série perde a sua força ou ritmo, tudo está alinhavado de maneira a tornar os episódios (que mais parecem compor um filme longo, e não dez separações temporais) dinâmicos.
No entanto, e ainda que isto não seja o suficiente para tirar mérito à série, existem maus atores, ou, em comparação, muito abaixo do nível de Wagner Moura (que continua impecável), não só nas camadas mais secundárias mas até numa personagem que está bastante ligada com o protagonista, mas nada disso é suficiente para afastar possíveis espetadores.

Dito isto, a série termina de maneira arrebatadora. No último terço da temporada surge uma força renovada, de fazer invejar thrillers e filmes de crime, ainda que Narcos seja feita a uma escala menor, em termos de produção, mas onde nada fica aquém, onde as ramificações da história se resolvem e até chegam mesmo a prometer uma nova temporada porque, afinal de contas, a série chama-se Narcos e não Pablo Escobar.

O docu-drama permanece interessante, o ritmo continua acelerado e a história é cativante; esta temporada não perde para o seu antecessor.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com