Não se deixem enganar pelo aspecto barato de thriller exploitation. Nerve pode ser material pulp — afinal de contas é baseado num obscuro romance infanto-juvenil de Jeanne Ryan — mas vejam só a cena em que Dave Franco tem de cruzar vendado as ruas de Nova Iorque a 100 à hora numa mota. Não é o filme mais inteligente — nem sequer é o terceiro ciber-thriller mais inteligente desta década — e tanto a sua aparente incapacidade de ultrapassar o nível de literatura de aeroporto como o facto da tecnologia que faz apps como NERVE funcionarem vir a estar obsoleta no espaço de um ano, pesarão no rápido desaparecimento, mas, raios, como o filme funciona!

O filme é realizado por Ariel Schulman e Henry Joost, dois realizadores que poderão ser reconhecidos como o duo que dirigiu dois dos filmes da série Paranormal Activity (o que se passava nos anos 80 e o da faca no tecto da cozinha) e ainda o documentário Catfish, sobre o irmão de Schulman que foi contactado através da internet por uma rapariga prodígio de 8 anos, que tal como o nome do filme indica, se veio a descobrir não o ser. Schulman e Joost são dois realizadores claramente fascinados pela ambiguidade moral que o anonimato na internet pode gerar e dominam o assunto suficientemente bem para criar suspense credível e mantê-lo até ao final do filme. Nerve, é afinal de contas, sobre uma app viral, que está a meio caminho entre o Fear Factor e o Pokemon Go, em que as pessoas se dividem limpamente entre Jogadores e Espectadores em que os Espectadores podem propôr e preparar desafios cada vez mais perigosos para os Jogadores e em troco, se os Jogadores conseguirem superar os seus desafios, ganham dinheiro e fãs. Ganha quem tiver mais fãs. E, numa das mais subtis observações do filme, ganha quem contribuir para a melhor história. Ao reflectir a ansiedade por fama instantânea na internet numa battle royale entre millenials que lentamente se estão a aperceber que não são os flocos-de-neve especiais que sempre julgaram que eram, Nerve está munido o tipo de high-concept que faz thrillers menores roerem-se de inveja. Também é a razão pela qual o filme funciona tão bem: a sua premissa está carregada de potencial emocional e ela é plausivelmente minada pelo argumento e agarrada pelos realizadores.

Infelizmente, numa tentativa de tornar o seu filme mais interessante e distinto dos thrillers que o rodeiam, Schulman e Joost apostam numa fotografia cafeínada com resultados variáveis. Banhada no mesmo tipo de neons que já na década passada pareciam datados — pensem “Benoît Debie sem personalidade” — e apoiando-se no mesmo tipo de gimmicks visuais mal-enjorcados que Jaume Collet-Serra adora, visualmente o filme parece querer parecer fixe, em vez de o realmente ser. Enquanto as ideias em si não são más — hey, Suicide Squad fez do mesmo tipo de piruetas visuais com resultados bastante mais estéticos —, a sua execução artística, a cargo de Chris Trujillo, que fez um bastante superior trabalho em Stranger Things) está por demais aquém daquilo que almeja. NERVE é uma app, mas não se parece com uma app: parece-se com texto escrito em diferentes cores num ecrã preto e isso soa a falta de imaginação.

Na boa tradição dos livros infanto-juvenis anónimos — na boa tradição da pulp anónima, sejamos sinceros —, as personagens são mais estereótipos aumentados para o prazer do espectador do que pessoas a sério. Existe Vee, a protagonista tímida que descobre ser capaz de bastante mais do que aquilo que pensava ser capaz de fazer, Ian, o rapaz misterioso que a seduz, existe o geek que secretamente é um hacker, a amiga popular e a sua ajudante, a mãe preocupada e até podemos encontrar um antagonista secundário num desportista radical interpretado por Machine Gun Kelly cujo guarda-roupa parece ser inteiramente composto de relíquias do set de Mad Max – The Road Warrior. Tais são as convenções do género — para cada Harry Potter, tem de haver um Malfoy. O sorriso largo de Dave Franco e a awkwardness de Emma Roberts fazem-nos ganhar simpatia pelos seus personagens, mas o que é facto é que nenhum deles consegue ultrapassar a insipidez comercial da sua elencagem. Emma Roberts, para além de legally blonde, é de longe a actriz mais bonita do filme, e, no entanto, é suposto passar por uma rapariga tímida e sem sucesso amoroso no filme. Quando o jogador de futebol americano por quem ela tem uma paixão não correspondida a recusa apetece abaná-lo vigorosamente, não por ser uma besta, mas por não ter olhos na cara. Uma pessoa pergunta-se se não deveria ter sido, por exemplo Kimiko Glenn a ser a escolhida para interpretar Vee. O seu romance com Dave Franco seria bastante mais comovente, precisamente porque Glenn não é tão fácil nos olhar como Roberts, porque a relação entre os dois não seria tão garantida, até porque Dave partilha do aspecto de aldrabão que o seu irmão também tem. Quando Franco se abrisse com ela, ele subiria na nossa consideração.

E, ainda assim, Joost e Schulman conseguem fazer tanto com a sua premissa. Existe uma prova genuinamente aterrorizadora, em que Sydney, a melhor amiga de Vee tem de atravessar uma ponte feita com um escadote entre duas janelas num décimo andar, uma ideia que nos parece imediatamente péssima mas que tem um gancho espantoso, porque a motivação de Sydney é tão emocionalmente evidente: ela está a fazê-lo porque se sente ultrapassada pela amiga. Antes disso, Vee e Ian têm de sair a correr de uma loja de roupa de luxo de roupa interior e a sequência é excitante, porque o embaraçoso de estar semi-nu em público dá uma certa edge ao crescente romance entre eles. Mais tarde, Ian é forçado a repetir uma stunt que matou um amigo seu, e o medo que sentimos pela sua segurança é tingido pelo ódio que sentimos pelo colectivo anónimo de pessoas que o forçaram àquele desafio perverso. Nem os heróis nem os seus rivais estão a salvo da morbidez e do sadismo dos seus espectadores.

Os desafios que são propostos aos jogadores são todos dentro do limite do permitido pelo rating PG-13, para evitar a creepiness dos desafios sexuais que certamente haveria num tipo de jogo como estes. E, na sua recta final, o argumento torna-se bastante exagerado: o colectivo anónimo do NERVE, e sobretudo os seus criadores seriam imediatamente detidos por todo um arco-íris de infracções criminais várias, bem como os tentáculos de NERVE revelam ser tão poderosos que mais fazem lembrar o tipo de fantasias loucas que pais receosos têm quando ouvem falar na dark web do que o poder de agregação social de uma app. É verdade que ainda há semanas, Nova Iorque parou quando um Vaporeon apareceu no Central Park, mas quando a vida de pessoas balança nas mãos de um colectivo anónimo, o sentimento de revolta haveria de ser tão grande que afundaria o jogo. Existe uma razão pela qual, num pelotão de fuzilamento, é sorteada secretamente uma bala falsa entre os executores. Quando uma pessoa se pode desculpar com a possibilidade de não ter sido ela a puxar o gatilho, torna-se bastante mais fácil viver com a culpa.

Portanto, ainda que seja uma aventura improvável, os prazeres pulp de Nerve sobrepõem-se à crappiness inerente ao género. Que não o transcenda é até uma benesse, porque Nerve torna-se num dos poucos filmes que este ano genuinamente entretêm sem ter qualquer tipo de agenda de estúdio por trás. É um pequeno memento de uma época em que até o exploitation comercial não precisava de vir embalado em 100 milhões de dólares nem fazer parte de um universo de franchise, mas sobrevivia à custa da sua premissa e daquilo que fazia com ela.

E é por isso que, esta semana, ainda que o bonito mas vazio The Shallows seja o projecto de maior renome a estrear, Nerve é o melhor thriller nas salas portuguesas.

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes (arroba) 8dot5bits.com