Se há série que melhor conjuga drama e humor em menos de meia hora, é Barry, da HBO. Duas temporadas bastaram para perceber que, apesar de passar despercebida pela maioria dos portugueses, é das séries atuais que mais transcende em qualidade. Com Bill Hader no papel principal, alia atuações exemplares do seu elenco composto, entre outros, por Stephen Root, Henry Winkler e Sarah Goldberg, com uma capacidade em descortinar originalidade num tópico imensamente explorado – a moralidade de um assassino.

Não é comum vermos alguém com ligações à comédia e à improvisação encarnar um papel mais sério, complexo, e repleto de camadas construtivas. Contudo, estes traços são essenciais para que a execução da personagem resulte. Bill Hader, à semelhança de Bryan Cranston como Walter White (eu sei que falo de Breaking Bad a mais), aproveita-se da sua vasta experiência para conseguir dar vida a uma personagem curiosa e que cativa o público a ficar do seu lado, não obstante os atos hediondos que opera. Para isso importa a narrativa (e vida paralela) que Barry vai conduzir, quando, impulsivamente, se inscreve num curso de representação, ao invés de terminar o trabalho para o qual fora pago.

Ora, Barry caracteriza-se por ser um hitman (cuja tradução não sei de cor e tenho preguiça de verificar), ou seja, um homem que mata outros a pedido de terceiros. Capitalizando a sua insensibilidade com experiência militar, cai de um precipício para uma espiral da qual não encontra saída quando tenta equilibrar a representação com o seu habitual ofício. A incompatibilidade das realidades é um dos principais sucessos da série, para a qual também contribuiu a capacidade dos produtores (dos quais Hader faz parte) em minuciosamente entrelaçarem narrativas, formando uma linha de sentido reforçado que expusesse as fragilidades do protagonista.

As consequências das ações de Barry no curso de teatro replicam-se no seu criminal mundo obscuro, e vice-versa. Estes cenários são relevantes para o desenlace da narrativa e a forma como estão conjugados obriga a audiência a estar igualmente atenta a cada um deles.  Enquanto em algumas séries tendem para investir o público numa determinada narrativa, em Barry, nenhum dos pólos se sobrepõe em importância. Para tal ajuda a forma como os protagonistas, cenas e diálogos estão desenhadas, o que equilibra a balança entre determinados campos de ação.

Não há uma única personagem, secundárias incluídos,  que seja desinteressante nem que esteja subdesenvolvido. O impacto que Barry tem em cada uma delas faz com que desejemos mais intervenções e aplaudamos cada vez apareçam em grande plano. Há um misto cómico-trágico nos seus traços que se repercute, posteriormente, na narrativa, o que acaba por espelhar a luta interior com a qual o protagonista se debela diariamente. Barry depara-se, assim, com uma questão existencial sobre ser uma boa, ou má pessoa – algo que ironicamente lhe vai permitindo progredir na curta carreira enquanto ator amador. Do lado da audiência é, igualmente, inevitável dar de caras com pensamentos semelhantes, principalmente quando sentimos cumplicidade para com o protagonista. Mesmo sabendo que grande parte do que faz é bárbaro e injustificável, acabamos por ter uma certa compaixão e quase desculpar estes atos sempre que Barry procura (ineficazmente) extrair o bem que há em si.

Exercícios de moralidade não são novidade neste tipo de produções e enquanto várias séries ou filmes já se debruçaram sobre esta temática com resultados diferentes, Barry encaixa numa categoria premium, à qual poucos conseguem aceder. Contrapondo brutalidade imoral com sensibilidade extravagante ou, inclusive, altruísmo com egoísmo, a série consegue trabalhar brilhantemente diferenças entre emoções, motivações e géneros, em tão curto espaço de tempo. Em menos de dez segundos, podemos passar de ter o coração nas mãos, a rir às gargalhadas com os inesperados twists que a panóplia de características contrastantes permite. Para isso também ajuda a consistente performance do elenco – Bill Hader, como referi, desempenha o papel da sua carreira – mas todos os restantes conseguem desconstruir com mestria a complexidade inerente a estas personagens tão peculiares.

É difícil encontrar algo concreto que classifique Barry, mas decerto que está bem posicionado nos rankings de originalidade. O quinto episódio da segunda temporada, realizado pelo próprio Hader, é um ensaio sobre a criatividade da série, onde adota um estilo cinematográfico e contínuo, algo do melhor que se fez em televisão no ano de 2019. Parece, portanto, não haver limites para a imaginação dos criadores e produtores de Barry, que viram renovado o contrato com a HBO para mais uma temporada, a estrear no próximo ano. Até lá, espero que ganhe maior visibilidade em Portugal.

REVER GERAL
Barry
9
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Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)