Alguma vez pensaram que proferir um “Well, f*** you, then” pudesse ser conotado de romântico? Que albergasse um duplo sentido e que manifestasse maior genuinidade pura de que um “Amo-te” ou um simples e protetor beijo na testa? Pois, se nunca admitiram essa possibilidade, é porque não viram Fleabag.

A série criada por Phoebe Waller-Bridge foi uma das mais premiadas na cerimónia dos Emmies realizada há cerca de duas semanas. Ainda a procurar sair das sombras de outros fenómenos da cultura popular, pode ter encontrado a chave de ouro para garantir maior reconhecimento internacional que merece. Não sendo a atriz, produtora, faz-tudo-e-mais-alguma-coisa propriamente especialista em comédia (Waller-Bridge foi responsável pelo argumento da primeira temporada de Killing Eve e de co-escrever o guião do 25º filme da saga Bond), consegue criar momentos de humor e proximidade com a audiência ao hiperbolizar pequenas insignificâncias do nosso dia-a-dia, bem como quebrar a quarta parede.

Para quem não tenha entendido esta tradução literal, aqui fica a explicação do que a “Fourth Wall” se trata. É, precisamente, a jogada de mestre de Waller-Bridge para caracterizar a sua personagem, Fleabag, e torná-la tão singular e fundamental para que a sua narrativa faça sentido. Ao contrário de mim, que escreve este artigo quase seis meses após o final da série e numa altura em que Joker é a palavra de ordem.

Ainda a tentar superar a morte da sua mãe e da sua melhor amiga, lidar com o relacionamento do seu pai (Bill Paterson) com a sua madrinha (Olivia Colman) e aguentar as crises existenciais da sua irmã Claire (Sian Clifford), casada com o perfeito anormal Martin (Brett Gelman), Fleabag partilha com o público aleatórios pensamentos e polarizantes sentimentos sobre a sua vida que tenta endireitar. Estabelece uma relação de intimidade connosco e ajuda a sentir-nos identificados com a protagonista ao reconhecermos que os dilemas pelos quais ela passa, são também alguns que sofremos durante a vida. Além disso, Fleabag não consegue envolver-se emocionalmente com alguém – cede sempre à tentação do prazer máximo de qualquer encontro ou de qualquer homem com o qual se cruza na rua. Isso faz com que a ligação com o público seja especialmente única e essencial para o naturalismo e efeito cómico da série.

Permitam-me também afirmar que o papel do diálogo invisível com os espectadores pode auxiliar a consciencialização dos nossos problemas e a sua melhor aceitação. A perceção de não estarmos sós perdidos em pensamentos e que alguém partilhe as suas tormentas connosco contribui para aprender a rir de nós mesmos e distingue o conteúdo metafísico de Fleabag. A protagonista não é uma má pessoa, mesmo que cometa inúmeros erros, nem significa que tenha uma má alma. Contudo, após vários dias maus, que é que nunca se sentiu um autêntico fleabag?

Posto este pequeno devaneio, Waller-Bridge encontra novo rumo para a sua trama na segunda temporada, quando Fleabag se apaixona pelo padre (Andrew Scott) que vai casar, para sua infelicidade, o seu pai e a sua madrinha. Se tal não é irónico suficiente, mais fica quando o sentimento é recíproco – o que faz com que haja uma autêntica reviravolta na essência da série.

A partir do momento em que a intimidade entre Fleabag e o padre é cada vez maior, a protagonista comunica com menos frequência com a audiência. Já não necessita de admitir as suas vulnerabilidades com alguém – ficcional – pois encontrou um ser extremamente verdadeiro que a faça sentir segura. Além disso, o padre é a única personagem que consegue perceber que Fleabag comunica com uma entidade exterior – nós, o público – e que “se apaga” da realidade. Este pormenor, apesar de ditar aquilo que vai ser um desfecho penoso para a maioria dos espectadores, embeleza a narrativa graças às enormes diferenças contextuais de ambas as cruelmente similares personagens.

Aqui entra em jogo o tal jargão romântico, motivado quiçá pela incapacidade de expressarem emoções tão fortes, representado por um tão belo e sarcástico “Well, f*** you, then”. A frase que proferiram da primeira vez que se conheceram e que iniciou a química entre Fleabag e o padre, bem como das últimas ocasiões que partilharam um momento íntimo, capta a brutal verdade naturalista da série epónima. E, por conseguinte, tornam-na tão única que vocês apercebem-se que irão ficar com um vazio quando a narrativa chegar ao fim. Algo tão simples e aparentemente inócuo, mas que em vez de nos receber com um aconchegante abraço, dá-nos um brutal soco no estômago.

Afinal, é assim a vida. Cheia de efémeras euforias e eternas desilusões. Na verdade, não devemos olhar para tal com um sentimento derrotista, pois nem é essa a intenção de Waller-Bridge ao dar por encerrado (supostamente) o capítulo de Fleabag. Como tudo, há que saber aprender e encontrar um caminho que nos volte a despoletar alegria, carregando às costas a aprendizagem de uma dor que não pode ser considerada um fardo – pois, no fim de contas, “It will pass.” (passará). E, para a protagonista, a solução é conseguir enfrentar os seus problemas e encontrar nova intimidade para partilhar as suas inquietações.

É quase uma garantia que não haverá uma terceira temporada pois Fleabag dá a entender que se despede do público quando abana ligeiramente a cabeça e se começa a afastar rumo ao horizonte – sem que a acompanhemos nessa viagem. Não vou referir o porquê, mas creio que está subentendido.

Cáustica, corajosa e desafiante, Phoebe Waller-Bridge afirmou-se no mundo da comédia como uma das mais mentes criativas da atualidade. Com uma escrita original, desenvolve as suas personagens até criar a empatia necessária para atrair a audiência ao seu mundo e fazê-la perceber que não é assim tão diferente da protagonista. Enquanto atriz, é o pilar de uma narrativa que tenta despertar os que não param de procurar o significado da sua existência e resolver a dicotomia do bem e do mal. Enquanto produtora, volta a colocar o humor britânico no seu merecido lugar.

 

REVER GERAL
Fleabag
10
Avatar
Durante grande parte do seu dia, o Guilherme é analista de mercado numa multinacional tecnológica, enquanto se refugia na Netflix e salas de cinema durante o seu tempo livre. Por outras palavras, o Guilherme equilibra uma profissão que nunca imaginou ter, numa área na qual nunca imaginou trabalhar, com momentos de lazer onde se dedica a escrever, aquilo que sempre sonhou fazer. (o Guilherme nunca disse que queria ser poeta)