Já alguma experienciaste algo que te fez chorar e rir em simultâneo? Talvez te perdeste numa memória engraçada que partilhaste com alguém que partiu ou de quem te afastaste, talvez estavas num daqueles dias que são para esquecer, e cais num choro tão intenso que, após o recuperares o fôlego, só te dava para rir. Ou estavas só com uma moca do caraças (para quem faz disso, que, se os Srs. agentes a PJ estiverem a ler, eu nunca fiz nem encorajo). Se já sentiste algo do género, já sabes qual a sensação de ser fã de BoJack Horseman, mesmo que não tenhas visto um único fotograma da série.

Tenho de admitir, quando a série da Netflix criada por Raphael Bob-Waksberg estreou em 2014, eu não lhe passei cartão, e quando vi um episódio ao calhas odiei completamente o desenho, o estilo de animação, as vozes, tudo. Mas estava aborrecido um dia, decidi dar-lhe outra chance, e não foi um amor à primeira vista; foi mais daquelas relações em que dizes à outra pessoa “não penso em ti dessa forma”, mas lentamente evolve em algo mais profundo sem que te apercebas até estares emaranhado.

Pieguices à parte, uma breve introdução: a série conta a história BoJack (Will Arnett), um actor de Hollywoo(d) famoso por representar numa sitcom nos anos 90 mas afastado das luzes da ribalta há mais de uma década. Seguimos as suas desaventuras no mundo das estrelas, acompanhado da sua agente/ex-namorada Princess Carolyn (Amy Sedaris), o seu amigo Todd (Aaron Paul), a melhor amiga Diane (Alison Brie) e o seu rival/amigo Mr Peanutbutter (Paul F. Tompkins). Ahhh, e esqueci-me de dizer que BoJack é um cavalo falante, a Princess Carolyn é uma gata (literalmente), e Mr. Peanutbutter é um cão.

No mundo de BoJack animais falantes não só existem como são vistos pela narrativa como iguais aos humanos, e simultaneamente exibindo características dos respectivos animais (Carolyn diverte-se a arranhar e a brincar com novelos de lã, Mr Peanutbutter corre a ladrar a perseguir carros, etc.). E com toda esta loucura, a primeira coisa que tanto eu como a pessoa com quem eu estava a ver admiramos na série foi: “Uau, esta série é tão realista!”

É uma série cuja 1ª temporada consiste em piadas de celebridades, trocadilhos com nomes de famosos e animais (ex: existe um realizador chamado “Quentin Tarantulino”, que é uma tarântula), e na qual BoJack, bêbado e com uma paixoneta pela Diane, decide roubar o “D” do famoso sinal de Hollywood, o que faz com que pelo resto das temporadas as personagens se refiram ao distrito de LA como “Hollywoo”. E no meio de todo este absurdo, BoJack Horseman consegue atingir um realismo profundo que falta a muitas séries live-action, mas também rivalizar o humor satírico e absurdo de Family Guy ou The Simpons. A sua premissa, baixo orçamento comparado ao de um filme ou série noutro formato, e plataforma de streaming, dá também lugar à experimentação, trazendo-nos sequências psicadélicas com simbolismos psicológicos, um episódio subaquático mudo sem uma única fala, ou um episódio que consiste num monólogo, com uma personagem apenas a falar do inicio ao fim.

O “realismo” de BoJack não se baseia no ‘worldbuilding’ ou no enredo, não tenta um estilo documental como The Wire ou o Chernobyl, bem pelo contrário é uma comédia absurdista. Quando digo isso refiro-me ao ‘Absurdismo’, um género de ficção que se baseia na filosofia absurdista iniciada por Kierkegaard e desenvolvida por Camus. Não quero tornar isto numa aula de filosofia, até porque não tenho conhecimento para tal, mas estes conceitos são importantes para entender o que faz de BoJack (e digo-o sem qualquer exagero) uma das melhores séries de todos os tempos, e uma das que melhor espelha a sociedade e geração em que vivemos.

Trocando “por miúdos”, o conceito filosófico do “absurdo” é o conflito que se sente quando se nota que a vida e o universo não têm um propósito propriamente dito, apesar de a natureza humana querer impingir um significado. Para Albert Camus, quando confrontada com esta verdade uma pessoa tem três opções: suicídio (admitir que uma vida sem sentido não deve ser vivida); um “salto-de-fé” (deixar o significado para o Além e a religião); ou encarar e aceitar absurdo (se a vida não tem um significado, temos a escolha de lhe dar um). Para quem já viu Rick and Morty, outra popular comédia de animação absurdista, estes temas já devem ser familiares.

Existem variadas fontes de significado: religião, dinheiro, uma carreira, família, pertencer a uma comunidade, etc. Com uma infância e vida familiar tóxica, relações igualmente tóxicas e traiçoeiras, BoJack procura o seu significado na fama; em ser adorado por estranhos. Como ele diz à actriz Sarah Lynn de seis anos (apontando para a plateia): “Aqueles idiotas são os melhores amigos que vais ter, não és nada sem eles. A tua família nunca te vai entender, os teus amantes vão-te abandonar ou tentar mudar-te, mas os teus fãs, se tu fores boa para eles, eles vão ser bons para ti”. Anos depois BoJack ainda persegue a sensação, quase moca, de ser adorado, de pertencer no mundo, mesmo que nunca chegue, mesmo que não o faça feliz. Na 3ª temporada, mal descobre que foi nomeado para um Óscar pelo seu papel de sonho, BoJack diz apenas desapontado: “Eu sinto-me.. igual.” Se este momento foi o seu contacto com o Absurdo, BoJack começa lentamente o seu caminho para a aceitação na 4ª temporada, quando tenta confortar Diane dizendo: “Eis o segredo para ser feliz: finge que estás feliz, e eventualmente esqueces-te que estás a fingir.”

O realismo de BoJack Horseman é emocional e psicológico: não importa o exterior, se são desenhos ou animais, as personagens são mais humanas, no seu forro, do que as de muitas outras séries. Com todo o seu absurdo, BoJack toca em temas da ilusão e desilusão do sucesso e fama, de alcoolismo e vícios, de depressão e problemas mentais, relações tóxicas, vontade de ser melhor pessoa e falhar, e do ciclo que todas estas coisas criam entre si. Incrivelmente, esta série sobre um cavalo falante é-me pessoal e identificável a um nível que poucas outras o conseguem ser. Da mesma forma que muitos se identificam, a si e aos seus amigos, como um Donatello, uma Samantha, um Chandeler, um Ted ou Ravenclaw, as personagens de BoJack Horseman não só permitem mas encorajam esse tipo de identificação; há dias em que eu sou o BoJack ou a Diane, em que me sinto um Todd, pessoas na minha vida que identifico como Princess Carolyn ou Mr Peanutbutter. Aliás, um dos episódios chama a atenção a (e faz troça de) este mesmo fenómeno, quando as personagens discutem que “todos somos uma Zoe ou uma Zelda”, personagens de uma sitcom fictícia dentro da série, uma das quais é extrovertida e alegre e a outra introvertida e cínica.

Muitos da minha geração têm uma vida em que pouco lhes falta, com acesso a alimentação, informação, conforto, entretenimento, sexo, amizades, amor, tudo a um toque do polegar num smartphone, e mesmo assim caímos num vazio e melancolia; vários estudos indicam um aumento de casos de depressão e ansiedade na “Geração Y” superior ao das anteriores, que não tinham metade das nossas mordomias. BoJack tem tudo e não consegue ser feliz, bem pelo contrário ainda se sente mais miserável precisamente por ‘tudo’ não ser o suficiente. De forma hiperbólica mas verdadeira, o Bojack somos nós, a querer uma vida com significado mas distraindo-nos com coisas fúteis que só nos apercebemos que o são em raros momentos de claridade, momentos absurdos que só dão vontade de nos afogarmos em mais distracções fugazes; querendo ser melhores pessoas mas perdendo-nos na via mais fácil, culpando o nosso passado ou as pessoas à nossa volta ou “a sociedade”. Ele pode estar na meia-idade mas ele é tão ‘millenial’ que até dói. Chiça, dois anos antes do #metoo, já Diane trazia a público as acusações de assédio sexual por parte de um lendário apresentador de TV. Se tudo isto não é um sinal de que esta série atinge no nervo miudinho do que é a nossa sociedade actual eu não sei o que é.

Depois de uma luta controversa com os animadores da série, a Netflix anunciou, com o trailer da sexta temporada, que esta será a última de BoJack Horseman, dividida em duas partes, a primeira lançada a dia 25 deste mês, a segunda parte a 31 de Janeiro de 2020. Independentemente da qualidade artística, ou de se o BoJack encontra a redenção e o tal significado ou se suicida, independentemente do destino, foi uma absurda viagem emocional que não trocaria por nada.

 “Não importa o que fizemos no passado, ou como seremos lembrados. Tudo o que importa é o agora. Este momento, este momento espectacular que ambos partilhamos. – BoJack Horseman

Em jeito de despedida deste obituário a uma série que significa muito para mim e muitos outros, parafraseio prematuramente o protagonista: “My favorite show is dead, and everything is worse now.”