O universo é enorme, quase infinito. Biliões de estrelas, transformando hidrogénio para hélio, rodeadas por planetas de rocha e gás presos pela sua gravidade, sistemas solares dançando à volta de buracos negros ou estrelas neutron,  e anos-luz de espaço negro no meio. Para muitas pessoas, nada mais do que poeira, e silêncio. Mas, para os exploradores, para aqueles com a imaginação e conhecimento suficientes, é uma fonte de maravilhas, que nunca irá secar.

Outer Wilds é um dos primeiros jogos que joguei que consegue traduzir a paixão pelo espaço, pela descoberta e pelas possibilidades físicas, num jogo. Não é apenas um livro, que nos diz a relação entre o tamanho do astro e a sua força gravitacional, ou um filme, que nos quer mostrar tal, talvez suscitar um sentimento do quão pequeno somos. Outer Wilds realmente fez-me sentir como um explorador a bordo da minha própria Enterprise.

Dentro da nave

Apenas nos são dada umas pequenas palavras e uma curta introdução, e uma nave. Somos capitão, equipa e tripulação, um só. Temos umas quantas ferramentas, para ouvir sons no espaço, ou um pequeno droid que tira fotografias e nos dá luz. Mas, a mais valiosa ferramenta, e a que o jogo nos testa até ao fim, é a nossa curiosidade. Através de tentativa e erro, e erro e tentativa, exploramos e conhecemos o sistema solar à nossa volta.

Um dos planetas que visitamos é composto por wormholes paradoxais, impossíveis, onde as únicas formas de vida são monstros terríveis. Outro planeta é uma esfera de rocha lentamente a ser sugada para dentro dum buraco negro. Isto são apenas duas possibilidades, das muitas que o jogo nos dá acesso. O genial não é que o jogo nos dá a possibilidade de explorar estes planetas. Montes de simuladores medíocres nos dá espaço para caminhar, sem encontrar nada de interessante. Não, Outer Wilds não é um simulador duma viagem interestelar. Outer Wilds é Star Trek, é ficção científica. É a fantasia de explorar o espaço.

Em vez de viajarmos por milhões de planetas vazios de sentido ou significado, à procura de materiais para minar ou coisas para observar, Outer Wilds espera muito mais de nós. Temos que resolver um mistério, descobrindo como todos os planetas estão ligados. O buraco negro vai aonde? Porque é que aquela rocha desaparece quando não olho pra ela? Porque é que este planeta está submerso, e depois não está? Qual a diferença entre estes dois tufões? Tudo tem uma explicação, tudo tem um significado. Tal como Picard ou Riker descobriam como solucionar um problema entre duas civilizações, ou descobriam mais sobre uma cultura há muito destruída, ou o porquê duma supernova explodir, também o jogador tem que descobrir porque é que o universo funciona duma certa forma. E, ao descobrir, descobre também uma narrativa profunda, sobre a inevitabilidade da morte, e a beleza do espaço.

Em Giant’s Deep

Outer Wilds é um daqueles jogos que vem uma vez numa geração. Belo, impactante, um jogo em que cada elemento contribui para uma ideia maior, uma ideia sobre o universo e o nosso lugar nele. Muitos jogos passamos, e depois esquecemos. Damos uns tiros, evoluímos uma personagem, batemos um boss. As mecânicas sobressaem mas, para além de vermos números a subir, ou corpos a cair, nenhuma ideia se forma. Outer Wilds é a exceção, nesta indústria submersa em sidequests e supostos “mundos-livres”. Outer Wilds é verdadeiramente livre, somos nós o capitão, como já disse, somos nós que escolhemos para onde a nave vai, e o que vemos é apenas lembrado por nós, não por uma lista abstrata que nos guia constantemente.

Para quem quiser saber o que há do outro lado dum buraco negro. Para quem quiser explorar uma cultura antiga. Para quem quiser resolver mistérios, e lidar com matéria quântica. Para quem quiser ter uma Enterprise para si.

 

REVER GERAL
Outer Wilds
92 %
Miguel Branquinho
Um tipo que escreve livros de fantasia para se divertir. Formado em Montagem e Argumento na Escola Superior de Teatro e Cinema, presentemente interessado em Resident Evil, Wheel of Time, e no seu livro sobre deuses, cowboys, primatas, e super-heróis.