O filme “Portrait de la jeune fille en feu”, quarta longa da realizadora francesa Céline Sciamma, é um drama de época, passado numa mansão remota de uma França do século XVIII.
Tal como acontece quando se contempla um quadro, este filme faz do espetador um observador distante, neste caso, de um romance proibido entre duas mulheres.

As primeiras cenas introduzem Marianne (Noémi Merlant), uma pintora, que posa para as suas alunas, que a desenham. Marianne sugere-lhes que tomem atenção à sua silhueta, aos seus braços, às suas mãos – a como o seu corpo existe naquele momento parado. Este será um tema recorrente na história: a atenção ao detalhe, ao que acontece à superfície, mas também ao que existe nas entrelinhas de um olhar ou de um gesto, aquilo que é possível ver quando o tempo quase pára.
De seguida, acompanhamo-la numa atribulada viagem de barco em direção à casa onde ficará nos próximos dias, para fazer o retrato de Héloïse (Adèle Haenel) – encomendado pela mãe, interpretada pela atriz Valeria Golino.

Héloïse vai-se casar num futuro próximo, com um nobre de Milão e, como presente, um retrato da noiva é oferecido ao futuro marido – este retrato deverá chegar a Milão antes da própria noiva. O problema é que o casamento arranjado não agrada a Héloïse, que se opõe a posar para qualquer pessoa que a tente pintar. Ela sofre da vida condicionada pela mãe, pela casa onde vive, e por um luto que o silêncio – o seu e o dos outros – não ajuda a superar.
A Marianne é atribuída a missão de completar o retrato encomendado, sem que Héloïse se aperceba que ela o está a fazer – a mentira usada é de que Marianne é apenas alguém para fazer companhia. Para isso, a artista usa todo o tempo que passa com Héloïse para a observar – como dizia às suas alunas para fazer – pintando à noite, de memória, em segredo.
O decorrer do filme, que vai pacientemente imprimindo tensão entre as personagens, acompanha uma independência feminina pouco usual. São as mulheres que fazem todo o filme – na verdade, poucas são as vezes que pontua um homem no ecrã.
Assistimos ao quotidiano de Héloïse, aos passeios na praia, às conversas, à insubordinação controlada perante a mãe e aos silêncios com que vai confessando ideias e sentimentos. A resposta chega de Marianne, que vai tentando entender como quebrar a máscara da mulher que tem de representar na sua tela.

Uma segunda parte do filme tem início no momento em que Marianne confessa a verdadeira razão por detrás da sua presença e mostra a Héloïse o seu retrato. O desagrado da retratada faz com que Marianne destrua o seu trabalho, mas também com que Héloïse aceite posar para uma segunda tentativa. Este é o momento em que uma mentira, ao contrário do que é normal, aproxima as duas mulheres, que agora confiam uma na outra, de outra forma – ainda por descobrir.
Uma viagem da mãe deixa Héloïse, Marianne e a afetuosa e atenta criada Sophie (Luana Bajrami) sozinhas na mansão durante alguns dias.
A gravidez involuntária de Sophie aproxima estas três personagens, que se tornam cúmplices no secretismo de um aborto, mas faz também com que, finalmente, Héloïse e Marianne cedam à tensão e à tentação que existe entre elas – existem vários sinais que antecipam este desfecho, nomeadamente uma bela cena onde ambas revelam aquilo que foram observando uma na outra, um diálogo que funciona como técnica de sedução, mas também como uma declaração.
Se, por um lado, o fazem fisicamente, envolvendo-se romanticamente, fazem-no também através da tela, que vai expondo uma forma cada vez mais real, cada vez mais nítida de Héloïse, que se deixa descobrir na pose condicionada às convenções da pintura feminina – contrastante com o que se vai passando fora da tela.

O aproximar do fim do filme, é também a despedida destas duas mulheres, que sabiam que estavam a viver uma realidade utópica, impossível. O terminar do retrato é o terminar de uma relação que, ainda que verdadeira, é obrigada a desaparecer, existindo só na memória de quem a viveu – o final, um pouco à imagem do que acontece em “Call Me By Your Name”, substitui Sufjan Stevens por Vivaldi, e encontra em pequenos detalhes a informação certa para fechar a história.

Durante grande parte do tempo em que se assiste a “Portrait de la jeune fille en feu“, sente-se que a câmara está estática, fotografando imagens que poderiam ser quadros. Existe uma sensação das pinceladas numa tela, do jogo de cores, de texturas e de composições pinturais (quase mais que cinematográficas). A beleza poética do filme, para a qual a escrita se torna curta, é essencialmente  engrandecida pelos aspetos visuais e  o cenário contribui – a praia vazia, a pitoresca mansão, os vestidos e os espartilhos, as nuvens que escurecem o céu, a iluminação das velas ou de fogueiras, o jogo de luz e de sombra –, aliando-se à química e sintonia de Merlant e Haenel, que contribuem com interpretações magníficas das suas personagens. Da desconfiança e distância, à total entrega física e sentimental, passando por fases de provocação, de confissão ou de plena serenidade.
A sensualidade do romance não é particularmente explícita, nem precisa de o ser. Ela é, aliás, ampliada pelo desafio das normas e dos ideais: seja pela forma como algo que seria, por princípio, impossível, acaba por acontecer com uma naturalidade incontrolável, seja através de limites ideológicos ou físicos.

As temáticas da obra são várias: o poder libertador da arte, o desejo, o amor, a liberdade sexual e as ideologias do passado. E, é também por isso, que ganha valor conseguindo introduzir tantos tópicos sem nunca perder o foco do objeto principal: a relação.
A música, que vai dando mote ao jogo sedutor entre Héloïse e Marianne, é da autoria de Jean-Baptiste de Laubier e Arthur Simonini, a escolha do elegante guarda-roupa é de Dorothée Guiraud e os cenários ficaram a cargo de Thomas Grézaud.
O grande impulsionador do filme é, no entanto, a fotografia – encenada por Claire Mathon. A forma paciente como aguarda o desenrolar da história.  A maneira como oferece perspetivas diferentes, ora por meio de close-ups das personagens, ora captando os movimentos dos corpos que se vão afastando e aproximando, até ao inevitável culminar na relação amorosa entre estas duas mulheres.

“Portrait de la jeune fille en feu“ é uma valsa lenta, de corpos que flutuam num tempo que parece parado, apesar de ser limitado pelo iminente casamento de Héloïse . É também uma possível demonstração da ténue linha entre pintura e ecrã, entre o estático e o movimento, entre a imagem que se vê no primeiro instante de contemplação e todo o enredo que levou à existência desse mesmo instante, que se releva, lentamente, quando observado pelos olhos certos.