Videojogos

Teste a ‘Beholder’

Um Estado totalitário controla todos os aspetos da vida pública e privada. As leis são opressivas. A vigilância é total. A privacidade está morta. Tu és o gerente de um bloco de apartamentos, nomeado pelo Estado. A tua rotina diária envolve fazer do edifício um local agradável para os inquilinos, que vão e vêm. No entanto, isto é apenas uma fachada que esconde a tua verdadeira missão… o Estado quer que espies os teus inquilinos!

Beholder é um jogo de estratégia indie bastante peculiar.  Todo o jogo se passa num único bloco de apartamentos, onde somos uma espécie de Big Brother, mas de Big Brother no sentido Orwelliano, como na sua obra 1984, onde vemos tudo o que todos fazem através das câmaras que instalamos em cada apartamento. Isto porque trabalhamos para um Estado totalitário e contolador, incansável e implacável. Se algumas das leis que vigoram são assustadoramente parecidas às que existem na realidade em países com regimes ditatoriais, como as que proíbem a existência de partidos políticos ou as manifestações, o jogo aligeira o ambiente com um pouco de humor negro em algumas das situações em que somos contactados com novas diretivas do estado, onde surgem decretos tão absurdos como o que proíbe o consumo ou posse de maçãs e ordena a sua destruição.

O ambiente é, de resto, o elemento mais bem conseguido de todo o jogo: desde o início, onde vemos o antigo senhorio ser despedido (entenda-se espancado, preso, executado sumariamente, o que nos dá uma ideia do que nos acontecerá se falharmos nas nossas missões), ao facto de todas as personagens serem representadas como uma espécie de sombra negra, Beholder recria na perfeição a depressão associada a ter de (sobre)viver numa sociedade como esta.

Beholder mistura estratégia com elementos típicos de uma aventura gráfica clássica 2D point-and-click, onde se inspira todo o interface. Recebemos frequentemente missões do Estado, nas quais temos que vigiar um ou outro inquilino, recolher provas dos seus crimes e denunciá-los às autoridades. Por vezes, é aflitivo ter várias missões em simultâneo e ter que acorrer a várias situações ao mesmo tempo, mas por outras sentimos que não temos muito mais que fazer do que esperar pacientemente que os inquilinos saiam das suas casas para as podermos revistar. Temos frequentemente pouco dinheiro, o que nos pode levar a querer roubar ou chantagear as outras personagens, pelo que a moralidade das nossas decisões é sempre ténue.

Graficamente, Beholder é simples mas agradável à vista, escuro, sujo, enclausurante, como se pretende neste ambiente. Os efeitos sonoros cumprem a sua tarefa, mesmo sem serem muito elaborados, mas a banda sonora é bastante boa, pesada e deprimente.

Em conclusão, Beholder é uma boa proposta para todos os que apreciem estratégia ou voyeurismo num mundo triste com traços assustadoramente realistas. Podia apenas ser maior e mais variado…

Pedro Moreira é Reviewer no 8.5Bits | twitter @morenho27 | pedromoreira@8dot5bits.com

Jogador desde os tempos do Spectrum, aficionado a jogos de Luta, Condução e RPG. Estudou Línguas e Literaturas na Universidade Nova de Lisboa, e Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade de Évora. É Professor de Português e Espanhol, e nos (poucos) tempos livres consegue, por vezes, ligar o PC.
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