Com Trey Parker e Matt Stone fora do grande ecrã desde Team America: World Police (já passaram 12 anos, conseguem imaginar?), Seth Rogen tem-se vindo a isolar como o mais importante cómico mainstream americano a trabalhar sobretudo em cinema, como guionista e actor. Rogen e o seu partner in crime Evan Goldberg, têm, desde Superbad, vindo a construir uma impressionante carreira a escrever uma série de comédias high concept que tocam no coração da pop-culture americana. Nem todos os seus guiões se traduziam em bons filmes, mas This is the End, The Interview, Pineapple Express e Superbad merecem, cada um, lugar no panteão da comédia norte-americana.

Sausage Party é o seu oitavo guião a quatro mãos. Embora não o tenham realizado — a ideia de passar para um filme de animação é uma perspectiva arrepiante para qualquer realizador em live-action — não pode haver dúvidas sobre a proveniência de tal projecto. Sausage Party é um filme de Rogen & Goldberg de cima abaixo. Por isso, escondam as vossas crianças porque Sausage Party é uma das mais grosseiras comédias que saíram para o mainstream desde que Friedberg e Salzberg foram exilados para o mundo do VOD. Também é a primeira comédia mainstream sobre um tema abertamente religioso desde… bem… desde This is the End. E é o primeiro filme de animação exclusivamente para adultos produzido por um grande estúdio de Hollywood desde Beowulf. É como se Rogen e Goldberg tivessem decidido dar um presente a John Waters e alguém, por acaso, tivesse achado uma excelente ideia e lhes tivesse dado 19 milhões de dólares para o concretizarem. Uma comédia risqué sobre a crise existencial de um inteiro supermercado quando os produtos expostos descobrem que em vez de serem bem tratados quando são comprados, são selvaticamente mortos pelos seus deuses é tão high concept quanto uma pessoa pode ir. Pena que, quando o filme acaba, o mais memorável àcerca do filme é a panóplia de trocadilhos que Rogen e Goldberg conseguiram inventar à volta dos alimentos.

OK, vamos lá a ver, não entremos em pânico, Sausage Party não deixa de ser uma boa comédia. É a segunda melhor do ano, atrás do The Nice Guys de Shane Black. Alguns dos conceitos por detrás das personagens são vencedores: a Aguardente de Bill Hader e uma pastilha mascada de cadeira de rodas são uma alegria em qualquer cena que estejam. O supercool Edward Norton não está acima de vir fazer uma participação como Woody Allen na forma de um bagel judeu. A slapstick é, maior parte do tempo inspirada. Rogen e Goldberg, com a sua propensão para apimentar a sua comédia com golpes de violência perversa são possivelmente as únicas pessoas no mundo que poderiam criar um filme de terror e comédia ao nível de Evil Dead II. Se já tínhamos tido Michael Cera (outro tesouro nacional canadiano) empalado num candeeiro, ou Kim Jong Un a disparar uma pistola pelo rabo de um general acima, desta vez, para além da bastante spoilada cena na cozinha, temos uma panóplia de cenas de violência extrema, tornadas divertidas pelo facto de estarem a acontecer a comida. A música faux-Disney, composta por Alan Menken, que nos últimos três anos só tinha feito três bandas sonoras é por vezes um achado cómico — estejam atentos à luta coral masculinos e femininos no número de abertura, certamente o melhor número musical cómico num filme desde Kyle’s Mom is a Bitch. E no terceiro acto somos brindados com uma batalha e uma cena de sexo que em termos de humor negro definitivamente deitam a casa abaixo e só por isso o filme merece ser visto.

No entanto apesar de bom, o filme poderia ser melhor. Não há como negá-lo, tudo o que se passa no filme tem o aspecto de ser apenas uma segunda versão do argumento original submetido aos animadores. As transições entre cenas são péssimas, como se o dinheiro tivesse sido esgotado antes das cenas estarem completas e a montagem sofre bastante com isso, porque a história tende a saltar sem nexo entre diferentes cenas sem qualquer razão aparente. Por outro lado, durante uma boa meia-hora o único enredo minimamente interessante gira à volta de Barry, a salsicha deformada de Michael Cera que se aventura sozinha pelo mundo exterior à procura do supermercado de onde veio. Quando Barry finalmente consegue regressar, metade da sua história acontece off-screen, o que é especialmente frustrante porque a sequência da sua chegada ao supermercado tem potencial para ser tão hilariante como qualquer outra cena no filme.

Creio não estar a ser demasiado cruel quando comparo Sausage Party aos filmes de animação de Trey Parker e Matt Stone. De certa maneira, muito do schtick, ainda que completamente “Rogeniano” (essa palavra pode existir sem que ninguém me mate por hipsterismo?) deve toda a sua existência a filmes como Team America e South Park: Bigger Longer and Uncut, dois filmes infinitamente mais coesos e aguçados do que Sausage Party alguma vez consegue ser. Parker e Stone têm a benesse de trabalharem em filmes cujos protagonistas são “likeable”, ênfase nas aspas. Enquanto ninguém consegue odiar Seth Rogen. Seth Rogen suplantou Tom Hanks como o tio fixe da América, ele é brincalhão, e simpático, de barriga grande e barbas parece menos um judeu do que um urso gigante. Essencialmente, Rogen nunca deixou para trás a sua adolescência, sem que isso lhe afectasse a sua vida adulta e isso dá-lhe uma personalidade apelativa. E, por consequência, os actores que o rodeiam também não inspiram grandes ódios: Kirsten Wiig, Michael Cera, Bill Hader, Craig Robertson, Paul Rudd, Edward Norton, Selma Hayek… são todos pessoas capazes de usar a sua awkwardness com orgulho. Apenas Jonah Hill e James Franco são egocêntricos o suficiente para habitar uma personagem activamente irónica e Danny McBride é o único que tem capacidade para ser verdadeiramente odioso. E ainda assim os papéis que lhes são atribuídos são completamente inofensivos. Por isso sim, as personagens de Sausage Party são todas bastante likeable. O trade-off é que isso torna os arcos das personagens tornam-se todos bastante “sérios”, o que tira a frescura do argumento. Quando todo enredo da comédia romântica, da zanga-entre-os-namorados-a-meio-do-segundo-acto mostra os seus dentes, só dá vontade de fazer fast-forward até ao momento da reconciliação.

Não podemos culpar tudo no guião. Muitas das cenas têm o aspecto de terem sido despachadas à última da hora por falta de dinheiro (e tempo) para apurar o conceito. Para além da animação ser bastante feia — Sausage Party, a nível de animação não é muito melhor que uma qualquer série actual animada em gráficos 3D — a realização, a cargo de Conrad Vernon e Greg Tiernan (um, o realizador de Madagáscar 3, o outro autor de uma panóplia de filmes de Thomas, the Tank Engine) é medíocre e os setups de câmara indistintos. O filme funciona por meio de uma série de clichês visuais que, apesar de não retirarem à comédia, cobrem os procedimentos com uma certa aura de preguiça tão comum nas comédias mainstream americanas. Existe muito a aprender com Edgar Wright e Sam Raimi.

Sausage Party não é a pedrada no charco que prometia ser. Mas não há mal nisso. Com o sucesso comercial do filme (neste momento, Sausage Party já fez seis vezes o seu orçamento em receitas de bilheteira) pode ser que Hollywood comece a apostar mais em filmes de animação para adultos. Posso não ficar rendido à ideia de uma sequela que a última cena promete, mas a simples esperança de ver excelentes animadores adultos independentes como Bill Plympton, Raphael Bob-Waksberg ou Don Hertzfeldt, a entrarem no mainstream americano e poderem esticar os seus braços com orçamentos mais significativos, faz-me ter esperança no futuro.

PS: Salsicha Party, o título que o filme recebeu em português, é possivelmente a tradução mais idiota de um título alguma vez feita em Portugal. Bate ET’s in da Bairro (Attack the Block), Zombie Party – Uma Noite… de Morte (Shaun of the Dead) e Mais uma Noite de Merda nesta Cidade da Treta (Being Flynn). ESTÁ ALI!!! O TÍTULO FESTA DA SALSICHA ESTÁ MESMO ALI!!! COMO É QUE FESTA DA SALSICHA NÃO É UTILIZADO??? É DE CARAS!!!

António Mendes é Editor de Cinema no 8.5Bits | antoniomendes (arroba) 8dot5bits.com