Costumo vir aqui escrever sobre cinema, mas abri uma excepção para um jogo especial: Shenmue 3. Estou a apenas alguns dias de o receber, pois fui um dos “bakers” que nas primeiras 24 horas ajudaram a financiar o mítico jogo da Sega, mesmo sem ter qualquer aparelho para rodar o jogo, nem tencionar vir a ter. Quando receber o jogo vou pedir emprestada uma PS4.

Para gamers mais recentes Shenmue pode não dizer muito, mas para jogadores mais antigos Shenmue foi uma verdadeira revolução na experiência de jogo. 

Corria o ano de 1999 quando o jogo chegou à Dreamcast. O marketing do jogo apresentava-o como revolucionário devido ao seu sistema FREE (Full Reactive Eyes Entertainment) que consistia em poder interagir com tudo o que víamos no ecrã, a juntar a isto vinham os melhores gráficos já vistos até então, que tornava a experiência altamente realista. O

cenário do jogo era baseado num bairro que existe em Tóquio. Para mim que sonhava com uma viagem ao país do sol nascente Shenmue acalmou ao mesmo tempo que confirmou a vontade de lá ir.

 

Durante uma semana joguei de manhã à noite. Tornei-me Ryo Hazuki e tomei como minha a sua missão. Vingar e descobrir o que se tinha passado com o seu pai morto as mãos do misterioso Lan Di. A cinemática abertura apresentava a ambição por de trás da experiência de jogo. Uma aventura épica que se dúvidas houvessem a banda sonora feita e gravada por uma orquestra confirmava. Banda sonora essa que tinha sido feita antes do jogo que depois foi entregue a quem trabalhava no jogo de modo a inspirar quem o ajudava a criar.

Shenmue começou a ser desenvolvido para a Sega Saturn. Nasceu da ideia de fazer um RPG para Akira um personagem do também revolucionário Virtua Fighter. O projeto foi adiado para a consola seguinte tendo custado 47 milhões de dólares, o jogo mais caro de sempre à época.

A consola Dreamcast já ia mal das pernas quando foi lançado e Shenmue não foi suficiente para a salvar, pouco depois saiu Shenmue 2 a continuação da aventura que mantinha muitas das coisas que tinham feito sucesso no anterior como passagem realista de tempo, condições meteorológicas reais, possibilidade de falar com todas as personagens do jogo, ter de arranjar trabalho para ter dinheiro para viver, sistema de luta, entre outros. Tudo isto numa cidade e depois numa aldeia algures na China. O jogo estava maior mas desta vez

sem direito a dobragem inglesa. Já a Dreamcast tinha os dias contados.

Este segundo jogo, embora fosse bom, mudava de cenário e estava menos detalhado que o primeiro. O 4º e último disco deste capítulo tem uma abordagem curiosa. Aqui, Ryo conhece uma rapariga que já tinha visto em sonhos. Neste último capítulo só tínhamos de conversar e fazer alguns Quick time events que agora são tão comuns.

O jogo terminava numa caverna em que se revelavam alguns mistérios e levantam muitos mais. 

Com o fim da Dreamcast ficamos a achar que nunca iríamos ver o final deste épico. Apenas alguns rumores mantinham a chama viva. Até que em 2015 a Sega entregou ao criador do jogo, Yu Suzuki os direitos para fazer uma continuação e este decidiu avançar com um KickStarter para o financiar. O jogo bateu recordes e iria ser lançado um ano depois. Acabou por se atrasar e finalmente depois de ter recebido 119 e-mails com actualizações em 2019 vai sair e vamos poder continuar esta aventura. Continuar, não terminar, pois este não é o último capitulo desta série.

Shenmue é um jogo diferente dos outros. Exige paciência, pede que se explore e que nos maravilhemos com a seu mundo. Mas assim também são os fãs deste jogo que pacientemente esperaram para poder uma vez mais explorar e maravilhar-se com esta aventura épica.

Acabei por ir ao Japão em 2015 mas quando lá estive senti que não era a primeira vez que visitava aquele país graças ao Shenmue.