A cada ano que passa, novas edições dos maiores jogos de futebol surgem a tempo do Natal. É verdade no caso de FIFA, é verdade no caso de PES, e é verdade no caso de Football Manager, apesar das diferenças que os separam. Como decerto saberão, Football Manager não pretende ser um jogo de futebol virado para a ação do jogo, mas pretende focar-se nos aspetos relativos à gestão de uma equipa. Se em FIFA ou PES podemos sentir-nos um pouco na pele de Ronaldo ou Messi, jogando com habilidade e marcando belos golos, em Football Manager o nosso objetivo é libertar o José Mourinho ou Jorge Jesus que há dentro de cada um de nós, treinadores de bancada.

Para quem é novato na série, ou para quem tem estado desligado da mesma nos últimos anos, Football Manager 2020 pode ser um pouco assustador, pelo nível de detalhe dado a todos os aspetos que temos que gerir enquanto gestores de futebol de um clube, o que vai um pouco para além do papel normalmente associado aos treinadores. Para dizer a verdade, o treino dos jogadores será uma das nossas menores preocupações no meio de tantas que teremos em Football Manager 2020. Aspetos como a gestão do staff, o scouting de novos jogadores, a relação com a imprensa, a gestão da informação nas redes sociais, a gestão de contratações, empréstimos, renovações de contratos, entre muitos outros, tornam Football Manager uma experiência profunda, detalhada, que não pode de forma alguma ser encarada com pressas. A curva de aprendizagem é lenta e requer um grande investimento em termos de paciência e tempo, mas felizmente Football Manager 2020 vem acompanhado de alguns tutoriais que nos guiarão pelas bases de cada área a gerir.

Sabe-se que o público alvo de um jogo como Football Manager é relativamente restrito, especialmente direcionado aos seguidores de longa data da série, pelo que o próprio jogo nos apresenta as suas novidades face à versão de 2019 assim que entramos. Algo que se nota é que o grande foco deste ano foi na aposta em jogos ainda mais longos, que não se resumam a uma ou duas épocas, algo que era apontado como falha em Football Manager desde já há algumas edições.

Assim, a Visão do Clube apresenta-se como uma nova forma de interagir com a direção do clube para traçar objetivos de longo prazo, que reflitam a cultura do clube e onde este pretende estar daqui a três ou quatro épocas. Isto é algo mais próximo da realidade, esquecendo a visão temporada a temporada, e que incentiva os jogadores a continuarem a jogar mesmo depois de terem vencido o campeonato no primeiro ano.

O Contro de Desenvolvimento é outra novidade que nos incentiva a jogar mais tempo. Basicamente, serve para potenciar todas as jovens pérolas oriundas da formação, ou contratadas a um qualquer clube desconhecido, para que possamos tentar criar um novo João Félix.

O Tempo de Jogo é uma nova forma de abordar os contratos dos jogadores, prometendo-lhes minutos de utilização ao longo do contrato. Isto é especialmente útil se quisermos contratar uma jovem promessa a todo o custo, mas sem lhe atribuir à partida o estatuto de estrela.

Os Gráficos Melhorados, que podem ver no vídeo anterior, referem-se aos novos modelos dos jogadores e aos avatares dos treinadores, nos quais é possível, por exemplo, aplicarmos uma foto nossa para que este fique com a nossa cara. Já no campo, há algumas melhorias em relação ao aspeto dos estádios, da luminosidade e das diferentes condições atmosféricas. Na prática, os gráficos são pouco mais que sofríveis, mas isso é algo que se perdoa facilmente num jogo onde o foco não é o realismo do aspeto visual ou sonoro, como acontece com FIFA ou PES.

Por último, a Equipa Técnica inclui novos membros, como alguém para gerir os empréstimos de jogadores, e é possível delegar mais tarefas que nunca na equipa técnica, para que não nos tenhamos que preocupar com todos os aspetos da gestão. As interações com o staff são também mais significativas, pois podemos pedir conselhos sobre assuntos como o melhor onze para o próximo jogo ou a análise de partidas já realizadas ou dos adversários observados.

As novidades da versão Football Manager 2020 Touch são semelhantes às do jogo principal. Para quem não conhece, esta é uma versão simplificada do jogo, também disponível para iOS e Android. Esta versão contém a grande base de dados do original, mas simplifica ou elimina algumas interações com jogadores e imprensa, como o são as palestras antes do jogo ou as conferências de imprensa. É aqui também que encontramos o modo Desafio, no qual temos de cumprir objetivos específicos como salvar uma equipa da bancarrota ou da despromoção, ou terminar um campeonato invictos. Infelizmente, esta versão vem impregnada de conteúdos descarregáveis perfeitamente desnecessários e com preços absurdos. Por exemplo, por pouco mais de um euro podemos comprar um consumível de uma só utilização que faz com que a nossa Direção nos deixe gastar mais dinheiro que o previsto numa contratação. É injustificável a presença de consumíveis que roçam o pay-to-win num jogo pago, para mais porque nem acrescentam nada à experiência.

Por último, ambas as versões, seja a completa ou a Touch, apresentam vários modos online claramente destinados a jogar com amigos. A carreira online caracteriza-se por ter um ritmo ainda mais lento que o jogo a solo, o que implica uma grande disponibilidade por parte dos jogadores. O modo Fantasy Draft é também muito interessante, sendo talvez o modo em linha mais apelativo, no qual os jogadores começam com um orçamento limitado e devem formar o seu plantel escolhendo os seus jogadores de entre um leque pré-definido.

Uma das falhas que nós, portugueses, podemos apontar a Football Manager 2020 é a ausência de licenciamento do campeonato português e respetivos clubes. Não temos o nome real dos clubes, apesar de o nome dos jogadores se manter intacto, nem os emblemas de cada um. É só um detalhe, é certo, mas é pena que numa experiência que pretende roçar o realismo tenhamos que treinar um clube chamado SLB cujo símbolo é uma mancha vermelha disforme.

Para concluir, resta dizer que Football Manager 2020 é um videojogo sui generis: destina-se a um público alvo bem definido, não é fácil de aprender, muito menos de dominar, e o seu grafismo ou sonoplastia são tão simplistas que quase não se dá por eles. E é nisso que reside a sua beleza.

Pedro Moreira é Reviewer no 8.5Bits | twitter @morenho27 | pedromoreira@8dot5bits.com

REVER GERAL
Football Manager 2020
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Jogador desde os tempos do Spectrum, aficionado a jogos de Luta, Condução e RPG. Estudou Línguas e Literaturas na Universidade Nova de Lisboa, e Línguas, Literaturas e Culturas na Universidade de Évora. É Professor de Português e Espanhol, e nos (poucos) tempos livres consegue, por vezes, ligar o PC.