THE DO OVER

A mais recente colaboração entre a Netlifx e Adam Sandler começa de uma forma que até dá ideia que se trata de um filme engraçado. No entanto, temos a certeza que vamos ver um filme clássico de Sandler quando este sentimento se dissipa não muito tempo depois.

Não é segredo nenhum que o famoso ator tem aproveitado, já há algum tempo, fazer filmes no estrangeiro para que possa fazer férias em simultâneo; Blended foi filmado na África do Sul, Just Go With It no Havai, por exemplo. É um método que passa automaticamente o filme para segundo plano, quase como se fosse uma desculpa para Sandler passar férias com os colegas. Claro que este filme não foge à regra, porque qualquer pensamento sobre o filme foi imediatamente atirado pela janela ainda antes do avião partir.

The Do-Over é o tipo de filme que parece ter sido feito à primeira, sem a supervisão de um olhar competente que pusesse ordem no conceito, estrutura, enfim, na narrativa que o filme tenta expor. Existem muitas coisas que não nos vêm à cabeça quando pensamos num filme de Sandler, como por exemplo: a cura para o cancro, plot twists, ou mesmo conspirações. Há um vasto leque de características que não constam nos seus filmes. No entanto, este tem isso tudo e mais alguma coisa.

Tudo começa com a mesma premissa básica dos seus filmes – um homem de meia-idade, de classe média, que se sente perdido na sua vida. Ele não conseguiu chegar aonde queria, profissionalmente, a mulher não gosta dele, está mergulhado na monotonia da sua vida,… o costume. O filme abre com a reunião da turma do secundário, onde Spade se queixa desta vida miserável que leva. Sandler, um antigo colega, compreende-o e então decide fingir as suas próprias mortes para que possam levar vidas mais excitantes. Quem nunca viveu esta história?

Na verdade, e para além desta resposta desconcertante, o filme também parece ser o mesmo de sempre, fazendo check em todas as alíneas que fazem parte de um filme de Sandler. Contudo, a certa altura há uma reviravolta e transforma-se num filme sobre encontrar a cura para o cancro. Literalmente. A primeira premissa – Max e Charlie tomam as vidas de dois outros homens para poderem viver descansados – transforma-se numa espécie de thriller sobre clínica geral. E não um particularmente bom, porque a cada cena são acrescentadas mais e mais histórias, numa tentativa de fazer parecer o filme mais inteligente do que realmente é, mas sem qualquer sucesso.

Apesar de tudo, há momentos engraçados, ou, pelo menos, com potencial cómico (mas não devidamente explorado). O facto de Spade trabalhar num banco que funciona dentro de um supermercado, por si só, tem piada. Infelizmente, o filme está mais interessado em fazer o mesmo de sempre, com as piadas do costume, as personagens do costume, com a dupla bros-before-hoes do costume.

Depois de todas as camadas, no entanto, ainda há outra que não poderia deixar de existir num projeto assinado por Sandler: é um filme sexista. Todas as personagens femininas estão no filme com o único propósito de serem lixadas pelos dois protagonistas. Ou para os lixarem a eles. Acaba aqui o seu leque de contribuições para o filme e, por isso, não é de estranhar, que o clímax destes cento e tal minutos seja uma catfight ao som de “Crazy for You” da Madonna. Depois, e também como não poderia deixar de faltar, há toda uma aura de pânico homossexual do início ao fim, com tanto propósito como a própria existência deste filme.

Como se isto tudo não bastasse, o filme está repleto de publicidade descarada. Corona, Nike, Bud Lite, todas estas marcas aliadas a imagens do oceano e raparigas de bikini transformam o filme numa gigantesca fantasia de homens de meia-idade. O que não está assim tão distante da realidade de Sandler, já que o projeto serviu de aquecimento para as suas férias, a julgar pelo resultado.

Pedro Gomes é Editor de Cinema no 8.5Bits | pedrogomes (arroba) 8dot5bits.com