O novo filme de Woody Allen – estreado no passado dia 24 de outubro em Portugal – não foge ao que o realizador norte-americano tem acostumado às suas audiências. Da ode à cidade de Nova Iorque às peripécias de um casal da alta-sociedade, intelectual e charmoso, “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” está repleto de lugares-comuns, diálogos do género estilístico e até maneirismos da obra do cineasta. A reminiscência a obras como “Manhattan” ou “Annie Hall” é inevitável e, apesar de claramente não chegar ao nível dos seus antecessores, este é um filme que merece ser visto e apreciado pelos espectadores – particularmente os fãs de Allen.

As personagens centrais Gatsby Welles (cujo nome faz tanto lembrar o “Grande Gatsby” de Fitzgerald como o realizador Orson Welles) e Ashleigh Enright – interpretados por Timothée Chalamet e Elle Faning – formam um casal que vai visitar Nova Iorque, quando Ashleigh consegue arranjar uma entrevista com um aclamado realizador de cinema. Um fim-de-semana planeado por Gatsby – que pertence à alta-sociedade nova-iorquina – para usufruir da metrópole em todo o seu esplendor através de um roteiro por alguns bares, hotéis e locais mais cosmopolitas da cidade, acaba por se tornar no habitual decorrer de eventos caricatos, apanágio do realizador.

A dualidade de personalidades de Gatsby e Ashleigh reflete-se na forma como passam este dia chuvoso. Ele, um rebelde contido, incompreendido e desorientado, membro da classe alta da cidade grande, que apesar do talento para o piano e da intelectualidade imposta pela mãe prefere passar o tempo a ganhar dinheiro em jogos de póquer. Ela, uma rapariga rica e ingénua, filha de um banqueiro do Arizona, uma amante do cinema que estuda jornalismo, está maravilhada pelo charme e inteligência do seu companheiro e pela primeira oportunidade de conhecer Nova Iorque. É que, apesar de ambos estarem na cidade nos mesmos períodos temporais, raramente se cruzam nos lugares, levando a que uma viagem de aproximação e romance a dois se torne numa descoberta daquilo que os distingue e afasta. Este é um casal que, como acontece em tantos filmes de Woody Allen, apenas sobrevive pela ideia que têm da relação, mas que, quando confrontado com novas realidades, rapidamente se apercebe da sua fragilidade e fatuidade.

Assim que Ashleigh conhece Roland Pollard (Liv Shreiber), o realizador que pretende entrevistar, apercebemo-nos de que existe uma atração e abertura entre os dois. Do lado dela, a admiração pelo talento do cineasta. Do lado dele, as lembranças de uma antiga paixão chamada Ashley e a honestidade ingénua da jovem estudante de jornalismo, levando a que Pollard a convide a visionar uma versão em bruto do seu novo filme, que considera um fracasso artístico.
É durante esta sessão privada que ficamos a conhecer Ted (Jude Law), o guionista que está a trabalhar com Pollard, que, quando o realizador desaparece, pede a Ashleigh que o ajude a encontrá-lo, partindo os dois para a rua, em busca do artista perturbado. Ted, por via da beleza da jovem e das suas próprias circunstâncias pessoais acaba por parecer também fascinado com Ashleigh.

Entretanto, um desconsolado Gatsby passeia-se pelas cinzentas e chuvosas (e não menos pesarosas) avenidas nova-iorquinas, ora conversando consigo mesmo – em monólogos típicos de Allen onde encontramos algumas das suas melhores piadas -, ora reencontrando peças do seu passado – como antigos colegas ou o seu irmão.
É precisamente num desses reencontros, com um ex-colega que estuda cinema, que acaba a participar numa cena de uma curta-metragem onde a câmara pretende captar Gatsby e Shannon (Selena Gomez) a beijarem-se apaixonadamente sentados num carro descapotável. Numa das mais belas cenas do filme, Chalamet revela uma timidez charmosa e Gomez uma sobranceria sedutora, enquanto caem do céu grossas gotas de água, que conferem ao momento um caráter ainda mais romântico – aqui fica evidenciada a grande capacidade do diretor de fotografia Vittorio Storaro, com quem Allen já tinha trabalhado em “Café Society” ou “Roda Gigante”.
Estas duas personagens voltar-se-ão a encontrar mais à frente (fruto de um acaso – ou talvez não) e, entre velhas canções tocadas ao piano e visitas ao Metropolitan Museum of Art, os dois vão-se aproximando entre provocações verbais e visuais – em várias demonstrações da usual capacidade humorística do guionista.

O reencontro final do casal Gatsby e Ashleigh, dá-se já depois de vários outros imprevistos vividos pelos dois: se por um lado a jovem dá de caras com Francisco Vega (Diego Luna), um ator mulherengo que a arrebata, Gatsby acaba a ter uma conversa séria e reveladora com a sua mãe (a carismática Cherry Jones), depois de contratar uma prostituta para se fazer passar por sua namorada numa festa familiar.
O desencontro entre os dois é um encontro – não completo, mas mais desenvolvido que no início – com quem eles são, fora da relação e fora dos meios e contextos que a tornam possível.

“Um Dia de Chuva em Nova Iorque” é uma comédia romântica superior, apoiada nas típicas referências intelectuais e artísticas de Woody Allen e que mantém a mistura entre charme neurótico das personagens e a beleza de uma Nova Iorque inevitavelmente aliciante – e, neste caso, vestida de um cinzento melancólico, mas sonhador.
O design de produção – a cargo de Santo Loquasto, que também já tinha trabalhado com Allen em vários filmes -, cria cenários que acompanham com destreza o enredo, mas parece tornar algumas personagens algo deslocadas temporalmente, principalmente pelo guarda-roupa mais adequado a outras épocas (ou a personagens de outras épocas), principalmente quando Gatsby tira um iPhone do bolso do blazer de flanela (ainda que os seus gostos antiquados se reflitam na compra de uma boquilha para cigarros ou nas velhas canções da Broadway que gosta de ficar a ouvir num dos bares de hotéis seletos que gosta de frequentar).

O 50º filme de Woody Allen, mais um que encontra casa numa Nova Iorque ficcional e muito própria do autor, está carregado de romantismo, daquele que é cinema, mas acima de tudo daquele que é mais real, onde os intervenientes românticos, tal como as pessoas igualmente reais, têm dúvidas, cometem enganos, traem confianças e acabam por se descobrir em comportamentos erráticos. Está também carregado de uma nostalgia que o autor octogenário não conseguiu – ou não quis – esconder, em relação à cidade, à cultura e aos heróis de histórias de outrora.

REVER GERAL
A Rainy Day in New York
Francisco Oliveira
Estudante de Comunicação Social e Cultural, interessado pela escrita, pelo cinema e pela junção dos dois.